Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O amor de João – o obsessivo e Tereza – a histérica,



A atração entre duas pessoas não ocorre ao acaso e muito menos por obra do destino. Todos somos cúmplices da história e do teatro de nossas vidas. Da mesma forma que uma chave se encaixa na fechadura, o sapato e o pé torto, a boca e o cachimbo, os desejos e as carências se buscam com a força de um imã em direção ao ferro. Uns conseguem o equilíbrio, outros se desequilibram no equilíbrio.
No começo da maioria das relações, quem comanda é a paixão. Quando o fogo abaixa e as brasas do início se transformam em cinzas, há dois caminhos: o tédio conformista ou a explosão de conflitos que fervia silenciosamente.
Uma dessas atrações fatais é a que acorre entre o obsessivo e a histérica. Os dois se fascinam e ignoram que caminham no corredor da destruição mútua. Um compensa o outro com as carências da infância, mas como toda a compensação um dia cansa e como a conduta de um não engana por muito tempo a do outro, as últimas cenas serão dolorosas para ambos.
João – o obsessivo – é solene, pomposo, rígido nos horários, detalhista e organizado. Tereza é teatral, mitomaníaca, um tanto ninfônoma, nem usa relógios, acha que a vida se encarrega de resolver tudo. Tereza é um barato: gosta de decotes insinuantes, adora os olhares suplicantes dos homens, enfim uma mulher sedutora. João é o que a sociedade convenciona chamar um Homem Sério: segue com rigor normas e etiquetas sociais, usam palavras rebuscadas e medidas e não tolera passar vergonha. João é um chato. Tereza gosta de viver em perigo e, quando muito, faz a concessão de um certo ar “blasé” ao estilo “belle époque”.
Tereza e João vivem o teatro do absurdo como atores e espectadores das mesmas cenas. Sem dúvida, ele a faz sentir-se mulher, abre-lhe com elegância a porta do carro, encomenda-lhe flores e puxa a cadeira à vista de todos nos mais sofisticados restaurantes. João transforma o ódio reprimindo em amor formal com a simetria geométrica dos homens perfeitos. Tereza faz que gosta, mantém o olhar de permanente apaixonada. As cenas iniciais são bem produzidas.
O problema é que João com atitudes formais e gestos elegantes, com o cérebro racional e lógico, esconde no fundo o ódio da tiranização. A cada dia isso torna-se mais claro quando se esvaem os primeiros êxtases da paixão e se desenvolve o temível convívio das intimidades. De maneira encoberta, o obsessivo comprime as emoções com seu cérebro, exatamente ao contrario do que a mulher lhe exige: mais afeto.
O relacionamento vai ficando difícil. João reclama da organização da geladeira, da falta de pontualidade de Tereza, dos objetos fora de lugar. Ela começa a se sentir sufocada com o ar que respira e para quem cedeu tanto nos primeiros instantes da paixão, a vida torna-se insuportável.
Tereza apercebe-se que foi mais um objetivo seriado na ordem sistemática de João. Mais um número de catálogo daquela vida ordenada e impecável. Por trás da cortesia solene, engolfada, pomposa, por trás daquela linguagem escolhida, mascarava-se grande ausência de calor humano.
Tereza explode. Zanga-se. A vida sexual deteriora-se com rapidez e infortúnio. João se afasta, isola-se, tranca-se em copas. Ambos falharam na competição pelos papéis.
Tereza passa a sentir dores nas costas e disfunções menstruais. A dor de Tereza é o seu pedido psicológico de socorro. Como não tem coragem de deixar João, pois diz não ter forças para recomeçar, é hoje uma influente líder do movimento carismático. Assim ela sublima seu sofrimento. João continua inflexível: nunca achou que estivesse errado. Pouco conversaram entre si, pois, nesses casos, o silêncio é a normalização do afeto.
Maurilton Morais
Enviado por Maurilton Morais em 05/03/2006
Código do texto: T119166
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Maurilton Morais
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 69 anos
34 textos (32151 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/16 00:48)
Maurilton Morais