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R A S T R O S

          Diz-se, "à grosso modo", que o Rio Grande do Sul iniciou sua organização política 237 anos depois do Brasil, quando em 1737 foi fundado o forte Jesus, Maria , José. É um exagero, pois essa é uma visão portuguesa. Muito tempo antes, os jesuítas espanhóis já haviam implantado as reduções e missões guaraníticas. Aliás, foram os próprios portugueses e descendentes destes que destruíram as missões e quase dizimaram os índios, o que, igualmente, pode ser visto como outro exagero. O rescaldo dos quatro primeiros séculos da história sul-riograndense formatou uma esteriotipada figura: o gaúcho. Isto é inconteste. Capitania desprezada pelos seus donatários, diferentemente do que ocorreu no sudeste e nordeste, o garrão brasileiro teve áreas chamadas de solidão, como no nosso litoral. Foi a partir do surgimento das estâncias que os povoados começaram a surgir. O cavalo era o principal meio de transporte individual. Fácil é se entender o porquê do apego ao cavalo dispensado pelos gaúchos. Haja vista as nossas fronteiras, demarcadas "a pata de cavalo". Rastros de História!
          A segunda metade do século dezenove trouxe à Ciência um grande impulso. Começaram a surgir importantes invenções, a era industrial alavancou e as cidades passam a  crescer descontroladamente, iniciando o chamado êxodo rural. Longe do seu habitat, o campesino se sente deslocado e, em muitos casos, desrespeitados pelos citadinos. A fundação da Sociedade Partenon Literário (18/06/1868) é considerado marco da tomada da consciência e da importância de cultivarmos e cultuarmos os aspectos culturais nativos gaúchos. Nessa ótica, grandes poetas e prosadores foram surgindo e instituições preservacionistas da cultura gaúcha aparecendo, culminando com o Movimento Tradicionalista Gaúcho organizado.
          Dentre as inúmeras manifestações que seguem essse rastro de história, uma das mais importantes é a chamada Cavalgada do Mar, realizada há mais de duas décadas, no mês de fevereiro, no percurso entre a praia do Quintão e  a de Torres, invertendo a direção a cada ano. Vilmar Romera, o atual comandante desta demonstração de amor à nossa formação ética/cultural, poeta que é, disse, certa feita, que os mais de dois quilômetros de cavalos e cavaleiros (as) andando à beira-mar parecem "embarcações de quatro patas". Todavia, a unanimidade é burra, já disse alguém. Uma senhora fez veemente recalmação do rastro de esterco deixado pela cavalgada, fato já solucionado, com os prefeitos prontificando-se a mandarem limpar a praia após a passagem do último cavalo. Na recente cavalgada a limpeza ocorreu normalmente, ocasião em que se pôde constatar, na carreta coletora, que os cavalos da Cavalgada do Mar milagrosamente estercam (?) latinhas de cerveja, espiga de milho, saco de lixo, papel de picolé, abacaxi, garrafas plásticas, melancia, linha de nylon, etc., com a maioria desse lixo abandonada a vários dias, ou semanas. É de se pergurtar: qual o rastro mais importante, merecedor de firme reclamação, o de lixo ou o de bosta? Um que é permanente nas ruas e na praia, renovado diariamnente, ou o outro que ocorre uma vez ao ano, limpo de imediato, ou seja, não permanescendo no local, e que até um simbolismo pode ter? Lixo ou bosta! Ora direis, RASTROS!        
Cláudio Pinto de Sá
Enviado por Cláudio Pinto de Sá em 06/03/2006
Reeditado em 25/03/2006
Código do texto: T119362
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Sobre o autor
Cláudio Pinto de Sá
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 69 anos
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Cláudio Pinto de Sá