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O certo é incerto

Certa vez aprendi na escola, algo que nunca mais esqueci. Foi durante uma aula de filosofia. Já não me lembro mais que período ou que filósofo. O que ficou gravado foi a mensagem e desde então tento recorrer a ela para me auto-educar. Nós humanos fomos e somos dotados de cérebro e da capacidade de aprender.

Isso nos propiciou avanços em todas as áreas do conhecimento. Tecnologia, Literatura, Medicina, etc. Veja-se o avião, a internet, a telefonia móvel, e tantos outros. Porém esse conhecimento adquirido cada vez mais cedo e cada vez mais apurado, pode nos levar a um erro básico e perigoso. A certeza de estar certo. A certeza de estar com a razão. A inabalável razão que por muitas vezes nos cega e nos leva a erros tão graves quanto desnecessários.

A teoria dizia que as vezes, nosso ponto de vista pode ser parcial e por isso nos dá uma visão limitada da "verdade". O exemplo foi muito simples. Uma folha de papel continha dois desenhos diferentes de cada lado. Um círculo e um quadrado. A mesma colocada entre dois alunos. Eis que ambos tiveram que responder uma simples pergunta. "O que você está vendo?" Obviamente cada aluno viu um objeto diferente do outro. Um círculo e um quadrado.

Foi então que eu captei a mensagem e percebi o quanto é fácil estar enganados ou, ter em mãos apenas parte do "conhecimento". Cada aluno via claramente um objeto diferente, entretanto ambos viam corretamente. Pode-se dizer que ambos tinham razão, mesmo que suas versões fossem contrastantes e parciais, como as evidências nos mostravam.

Tínhamos ali diante dos nossos olhos duas opiniões totalmente opostas. Um círculo e um quadrado, porém ambas coerentes com a realidade. No entanto, bastou mudar o ponto de observação dos alunos, para lhes mostrar que a realidade tinha outras faces, outras formas e que era mais complexa do que eles viram inicialmente.

De que serviu aquele exemplo? Serviu para por em dúvida todas as minhas convicções até aquele momento. Aprendi que devemos sempre duvidar das nossas certezas e ir em busca de novos pontos de observação. Algo como criar uma visão de 360°. Esse exercício pode nos levar à confirmação das nossas convicções, reforçando assim nossas teses sobre os mais variados temas. Ou pode nos mostrar que estávamos pura e simplesmente enganados, ou parcialmente certos e como conseqüência podemos mudar a nossa opinião com embasamento nos novos fatos.

Claro que na prática, a vida é muito mais complexa que uma folha de papel contendo dois desenhos. A realidade tem em certos casos muito mais que apenas duas faces. Para piorar, a realidade passa por uma metamorfose, mudando continuamente, o que nos obriga a estar sempre atualizados sobre o tema em discussão. Além da complexidade da "verdade", temos também que estar atentos a um outro fator importante. A veracidade das fontes de informação, as influências culturais que essas sofrem, os interesses pessoais de quem propaga a informação.

Como podemos facilmente ver, a "verdade" é nada mais que uma grande incerteza. Temos que nos deparar com a nossa incapacidade de conhecer todos os lados da realidade, temos que considerar possíveis influências nas nossas fontes de informação, sejam elas livros didáticos, revistas, jornais, experiências relatadas e tantos outros fatores que podem nos levar ao erro de avaliação dos fatos.

Temos que filtrar nossos interesses pessoais, e os interesses pessoais outrem. Enfim, aquilo que começou como uma simples folha de papel com dois desenhos que compunham toda a "verdade" se torna algo incompreensível, por vezes inalcançável. Precisamos sempre por à prova nossas convicções pois assim estaremos o mais próximo possível da verdade.
Ullisses Salles
Enviado por Ullisses Salles em 07/03/2006
Reeditado em 13/12/2009
Código do texto: T120011

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Sobre o autor
Ullisses Salles
Suíça, 40 anos
219 textos (69783 leituras)
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Ullisses Salles