Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

E SE EU FOSSE EU, CLARICE?


          Não foi fácil chegar até aqui, mas de alguma forma, com uma certa dose de dor e desfazendo-me de muito de mim, cheguei a este ponto do caminho. A bagagem era pesada e incluía cacarecos que vinha carregando desde muito. Alguns, presentes da família e das convenções aprendidas com ela. Outros, presentes dos amores não vividos ou mal vividos, igualmente de peso. Outros tantos, colhidos das minhas interpretações mal feitas sobre o certo ou o errado. Ao fim e ao cabo, malas e mais malas sobre as costas, já curvas ante o peso de tudo.
        Difícil desfazer-se daquilo que nos acompanha mesmo sem a nossa permissão mas, sem dúvida nenhuma, por nossa alienação ou omissão. Com se sabe, acostuma-se com tudo nesta vida, inclusive com lixo amontoado. Conceitos errados, preconceitos herdados e um equívoco enorme sobre quem somos. Na verdade, esse o grande desconhecido: nós.
        Li outro dia um texto de Clarice Lispector sobre algo como o que ela faria se ela fosse ela. Parece louco, mas é muito equilibrado. O que eu faria se eu fosse eu? Grande mestra em nos fazer pensar aquela senhora.
       Se eu fosse eu, provavelmente boa parte da minha bagagem carregada por anos já teria sido jogada em algum lixo à beira do caminho.
       Se eu fosse eu, com certeza não teria dado permissão pra muitos abusos contra minha integridade como pessoa como também não teria me omitido, o que, com certeza, não deixa de ser uma permissão pra qualquer coisa que queiram fazer com a gente ou, pior, contra a gente.
       Se eu fosse eu, seria menos elegante com gente que não tem o menor cuidado ou um leve toque de ainda que falsa elegância com meus sentimentos e mandaria ir pastar ou então ir para aquele lugar que alguns julgam desagradável e outros adoram. Só que teria antes o cuidado de perguntar à criatura em questão se ela gosta, pra não me arriscar a estar dando-lhe um prêmio.
       Se eu fosse eu, iria dormir quando tivesse vontade e não porque escureceu. Até porque no escuro da noite costumo ver com mais clareza as bobagens que cometi durante o dia.
       Se eu fosse eu, pensaria menos antes de falar, arriscando-me a umas bordoadas, mas premiando-me com a satisfação de dizer com todas as letras e sempre o que eu penso, economizando as reticências e acentuando bem o ponto final.
       Se eu fosse eu, diria que sinto que algo não está bem como está para o homem do meu lado, mesmo correndo o risco de ele não entender este "sinto" porque - meninos, perdoem-me - mas homem realmente não entende quando mulher cisma que algo não vai bem apenas por "sentir" e não por um fato ou algo mais concreto e escancarado diante dos olhos.
       De qualquer forma, cheguei até aqui com um tanto menos do peso que tinha e sabendo alguma coisa a mais sobre mim mesma. E Clarice deu um help e tanto. No mínimo, ela corroborou uma teoria antiga que formulei para meus momentos de crise: só há duas perguntas realmente importantes nestas horas. A primeira é o que eu quero de fato para mim e a segunda, o que eu não quero de jeito nenhum para mim. A primeira, nas crises, raramente sabemos a resposta. Para a segunda, é moleza. Todo mundo sabe  que não quer em hipótese nenhuma. E saber o que você nã quer é meio caminho para saber a resposta do que você realmente quer.
        Perguntar-se o que faria se você fosse você esclarece muito. Você acaba descobrindo, pelo menos, o que você pode fazer quando resolver chutar o balde e permitir-se o luxo de ser você mesma. E é só descobrir - se você não sabe quem você é, pelo menos, quem você não é.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 07/03/2006
Reeditado em 08/04/2006
Código do texto: T120019

Copyright © 2006. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154036 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 01:22)
Débora Denadai

Site do Escritor