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Diálogo com uma sereia


Convivemos com uma moça durante vários anos que tinha, dentre outros hábitos esquisitos, assistir à novela em pé. Aliás, as novelas, pois eram as de todos os canais e de todos os horários. Durante quase toda minha infância e adolescência ouvia minha mãe criticá-la, não porque ficava em pé, mas porque sempre apertava os olhos para poder enxergar. Dizia: “deixar de apertar esses olhos menina!”, às vezes, até num tom raivoso. Dentre suas qualidades, era dotada de um grande habilidade para adivinhar o que iria acontecer nos próximos capítulos, até mesmo aqueles que ainda estavam muito distantes. Sabia o nome de todos os personagens e explicava o enredo de todas as novelas transmitidas e retransmitidas de que se tinha notícia na época. E se emocionava sempre. Não eram raros os momentos em que a flagrávamos dando socos no ar ou xingando algum pobre ator. Confundir personagem/ator era de praxe. Ficava com raiva de verdade. Tremia-se, discutia com qualquer um que a contrariasse. Ia pro quarto às vezes revoltada, resmungando porque fulano ou cicrano não havia se comportado da maneira como ela considerava a correta. Eu sempre achava divertido assistir novela ao seu lado porque ai podia constatar de uma maneira bastante experimental o efeito da ficção na vida de uma pessoa, até que ponto a novela cumpriria seu papel (se é que traumatizar pessoas realmente fosse seu objetivo final...). Toda noite quando chegava em casa do colégio, lá estava ela em pé assistindo ao lado da cama de minha mãe, que vez por outra pedia para ela deixar de apertar os olhos. Há anos atrás contou-me uma estória bastante interessante. Disse que quando criança, caiu na cachoeira que fica na entrada da cidade de Paulo Afonso-BA, onde nasceu, (pra quem não conhece, é o tipo de cachoeira caiu-morreu). Porém, para sua surpresa e alegria, uma sereia encantadora surgiu e a chamou para uma conversa. Não lembro bem o conteúdo do diálogo, lembro-me apenas que as duas ficaram batendo papo numa pedra durante um longo período de tempo e que a sereia havia lhe revelado alguns mistérios da natureza, além de lhe prometer coisas muito boas durante sua vida. Disse que foi o momento mais especial que viveu, jamais esqueceria. Logo depois do bate-papo, a sereia a trouxe de volta para a terra dos viventes. Eu, criança, ficava imaginando como seria bom se tivera a felicidade de cair na cachoeira de Paulo Afonso, por mais medo que tivesse de altura, e encontrar uma sereia. Só não sei se minha mãe gostaria da idéia de ver seu filho despencando ponte abaixo rumo ao que ela denominaria de morte. Mas na minha mente vinha apenas a imagem das sereias, que são sempre belas, pelo menos as que se tem notícia, e eu provavelmente não aceitaria voltar pra terra dos viventes, independente do que ela me prometesse aqui. Ficaria por lá, nem que tivesse que viver como peixe ou coisa parecida. Acho que sonhei várias vezes com isso até o dia em que minha mãe achou por bem estragar minhas fantasias, dizendo que tudo aquilo não passava da falácia, helenisticamente falando, um mito. Fiquei triste por descobrir ainda tão cedo que minha esperança havia morrido e, o pior, de morte matada, além da contradição de ter sido a primeira a morrer. Na verdade, não acreditei em minha mãe de imediato. Achava que ela estava com inveja porque não tinha tido a oportunidade de conversar com uma sereia. Depois, muito depois, passei a desconfiar da moça. Ou ela queria me enrolar, ou não girava bem da cabeça. E olhe que sempre me inclinei a crê na última possibilidade, mas deixa isso pra lá. Voltando ao caso das novelas, os anos foram passando, a moça cada vez mais apertava os olhos, até o brilhante dia em que passou a freqüentar uma determinada igreja na qual, com pouco tempo, foi batizada e tornou-se membro. Ficou bastante feliz. No início chegou até a paquerar um membro, mas sua paixão acabou caindo por terra quando descobriu que o amor de que o outro lhe falava em cartas resumia-se apenas a um sentimento fraternal. Ficou muito triste, mas passou. O que não se passa nessa vida... Até porque sua fé sempre fora maior que qualquer decepção amorosa e se alguém quisesse morrer na flor da idade, que contestasse sua doutrina. Bem, passou alguns meses distante de nós, viajando não sei pra onde e, o melhor, de avião! Coisa que até hoje só conheço pela televisão ou quando vou ao aeroporto despachar ou recepcionar algum parente ou amigo. Sentimos sua falta, porque sempre esteve muito próxima de nós. Quase me criou, quase foi uma segunda mãe, mas vale ressaltar, quase. Até o dia em que retornou de suas viagens (agora reais, podendo ser comprovadas com os bilhetes das passagens) e a vimos, para nossa surpresa, de uma forma diferente, da mesma maneira que ela a nós. A novidade? Estava agora usando óculos, com bordas pretas e arredondadas. Ficamos todos impressionados com o ar intelectual que este acessório lhe conferiu. Coincidentemente, era fim de tarde e estava passando uma novela. Pela primeira vez em nossas vidas pudemos contemplar com nossos olhos que a terra há de comer que a moça já não apertava mais os olhos ao mirar a TV, embora continuasse com o velho hábito de parecer um cabide ao lado da cama. Até hoje não compreendo porque minha mãe durante tantos anos nunca a levou para fazer um exame de vista e assim, livrá-la daquele sofrimento, ao mesmo tempo em que também pouparia a si (a saliva) e a nós, (os ouvidos). Tem coisas assim na vida que não compreendo... Mas quem sabe os óculos foram exatamente a promessa da sereia, a fim de que pudesse usufruir com plenitude aquilo de que mais gostava na vida? Não sei...

O que sei é que hoje está morando no Recife e faz tempo que não temos notícias. Só espero que continue usando os óculos que o destino lhe proporcionou e que não conte mais suas estórias de sereia pra criança nenhuma, principalmente para crianças meninos.

Josué Mendonça
Enviado por Josué Mendonça em 09/03/2006
Código do texto: T120897
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Sobre o autor
Josué Mendonça
Salvador - Bahia - Brasil, 36 anos
52 textos (2263 leituras)
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