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UM AMIGO MUITO ESPECIAL



Interior do Rio Grande do Sul, lugar onde o Brasil acorda mais cedo com o canto do galo. Uma terra distante em que é possível contemplar a dança dos vaga-lumes e o canto dos bem-te- vis. E ainda, comer incontáveis bergamotas tiradas do pé. A vizinhança se ajuda entre um gole e outro de mate, entre uma troca e outra de receita caseira.

Nesse espírito interiorano e cooperativo, sem videogames ou computadores, a menina se criou. Ligada sempre à família, boas notas na escola. Uma vida pacata, cercada de amor e afeto entre os seus e, ainda, ao lado um amigo muito especial: o boi palhaço.

Quem diz que o melhor amigo do homem é o cão foi por que não conheceu o palhaço. O amigo constante e de todas as horas. Vê-lo pastar no campo trazia paz ao coração da menina e a certeza de que a racionalidade não é só atributo dos humanos. Basta ver o olhar do animal que fala por si só, pois a linguagem da amizade transcende à da palavra.

A menina sabia quando o animal estava com fome, sede ou frio e ele parecia adivinhar quando ela estava cansada de tanto estudar, de conversas fúteis ou das brigas diárias entre os irmãos daquela tão grande e numerosa família.

Os dias se passavam e a amizade entre a menina e o boi crescia cada vez mais. Certa vez, uma forte seca assolou o Estado com reflexos na agricultura e na pecuária. O pasto diminuía cada vez mais e o animal, aos poucos, estava definhando, mas sem perder o brilho característico no olhar que o singularizava. De certa forma, é até um sacrilégio pensar que aquele tipo de animal pudesse ser abatido e consumido ou que seu couro rendesse um casaco ou uma bolsa cobiçada por alguma “madame” em uma loja de grife da capital.

O palhaço, não era um boi comum, pois tinha nome, a alma humana e um coração gigante e, de forma diferenciada deveria ser por todos tratado, embora apenas a menina visse estes predicados em seu querido amigo.

O pai da menina recebeu uma boa oferta para vender o animal. A seca aumentava a cada dia. Assim, seria melhor vendê-lo do que ver o animal definhar aos poucos até chegar a hora fatal. O sofrimento da menina, de uma forma ou de outra seria inevitável e o pai, com psicologia e sabedoria, entendeu que aquela seria a melhor solução.

Certo dia chegou na casa da família um homem de pele morena, de poucas palavras, bigodes fartos e com um chapéu de palha na cabeça. Logo de pronto indagou onde estava o boi pois precisava levá-lo. A menina estranhou a forma de tratamento, pois aquele não era simplesmente um reles boi, tinha nome e se chamava palhaço. Um lindo boi amarelo. Para a menina o animal não tinha preço, pois uma verdadeira amizade vale mais do que notas de papel e não era fácil entender que o animal pudesse ser substituído por dinheiro e, ainda, vendido para um estranho que o considerava apenas como um negócio. Definitivamente, era muito difícil para aquela criança entender o complexo e hermético mundo dos adultos.

A vontade da menina foi de gritar e de protestar e de certa forma, o fez. O protesto foi silencioso, o grito calado e o inconformismo perceptível por meio de uma gota furtiva de lágrima em seu rosto. A mãe da menina teve vontade de abraçá-la e consolá-la, mas preferiu não fazê-lo, pois a vida reserva emoções fortes e doloridas e devemos estar preparados para enfrentá-las, ainda que durante a infância.

Palhaço não queria ir embora e abandonar a sua preciosa amiga. Os olhos eram tristes, como se gritasse por socorro, mas soubesse que não adiantaria. O elo se quebrava. O amigo estava indo embora e isso representaria uma perda irreparável e de fato, o foi. A menina, impotente diante daquela situação, passou a mão no pelo do amigo e com a voz mansa e o coração apertado lhe disse: vai com Deus, meu boizinho querido.

O boi, virando-se para trás, como um último gesto de Deus, mugiu para a menina, enquanto que ela acenava para o amigo e rogava, em silêncio, para que o menino Jesus o protegesse contra todos os males e perigos.

O tempo se passou. De lá para cá novos bois e vacas foram adquiridos, novas secas vieram, dentro do ciclo mutável, mas previsível da vida. A menina cresceu, valorizando os amigos e as pessoas ao seu redor, tendo sempre um carinho especial pelos animais. A menina, moça, hoje já mulher, não vive mais no seio da família, mas de vez em quando, visita à casa paterna para comer bergamotas, escutar o som dos bem-te-vis e percorrer o pasto onde seu amigo costumava estar, como uma forma de resgatar as lembranças da infância.

Ela aprendeu a lição de que a vida continua, embora não estejamos preparados para perdas, diante de nossa impotência frente ao mundo. Os sonhos e os amigos se renovam a cada dia, embora cada um seja essencialmente insubstituível por que é único.

A amizade entre a menina e o boi permanece viva, pois os sentimentos não se prendem ao tempo, nem apenas entre as pessoas, tampouco se condicionam ao espaço físico vital, pois são guardados do lado esquerdo do peito e no silêncio contemplativo das nossas emoções.
     
 


pássaro poeta
Enviado por pássaro poeta em 11/03/2006
Código do texto: T121612

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Sobre o autor
pássaro poeta
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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