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L I X O

          O trabalho de conclusão do curso de pós graduação, executado pela professora Cristiane Báo e que versou sobre o tema Lixo, Ecologia, Meio Ambiente e Reciclagem, ao qual eu tive acesso, apresenta dados impressionantes, para não escrever preocupantes.
          Esse tema, Lixo, e toda a problemática decorrente da sua formação e posterior descarte, se apresenta como mais um elo de uma corrente de fatores advindos de um mesmo nascedouro, qual seja, a negligência com a educação.
          O ensejo pela passagem dos quinhentos anos do descobrimento do Brasil, associado às diversas manifestações e à natural curiosidade, levaram-me à pesquisa e à leitura de alguns dos primeiros documentos relativos ao Brasil da era pós-cabrálica, onde podemos constatar que para esta nova terra foram mandados, entre outros, muitos degredados. Independente de o serem ou não, na verdade, para os reis de antanho, aquelas pessoas representavam o lixo, ou a escória da sociedade de lá, do além mar. Portanto, no alvor da nossa formação pátria, o lixo já se fazia presente, segundo o pensamento português. Não ouso cruxificar nenhum daqueles degredados, pois este é um assunto embaraçoso; se bandidos comuns, então eram mesmo lixo. No entanto, se foram contestadores de um regime, poderiam ser reaproveitáveis. Na recente história brasileira, encontramos um contestador, que foi obrigado a se asilar. Para o degredo pode ter ido como lixo, na visão dos mandatários ditatoriais. Reciclado o regime e restabelecida a democracia, eis que é reaproveitado politicamente, e se torna presidente. A partir de termos os degredados (os reais), passa o lixo a ser uma constante na nossa história. E este aspecto está tão enraizado, sucedendo-se de geração para geração, que hoje, passados meio milênio, não mais diferenciamos o bom do podre e, pacificamente, aceitamos toda espécie de lixo que nos apresentam ou impõem. Animais irracionais, os porcos sem trato podem se alimentar de lixo. Os porcos de granja, mesmo irracionais, alimentam-se de ração. São igualmente porcos, mas com valores perfeitamente diferenciados. Aos seres humanos, se for dado lixo cultural, continuarão sendo seres humanos, mas com valia muito inferior aos humanos alimentados pela cultura e o saber. E por inculto, ou alimentado por lixo cultural, um povo perde todo o poder de discernimento e, placidamente, se abastece nos cochos da mediocridade.
          Retornando ao trabalho de conclusão, acima referido, percebe-se que a reciclagem é o caminho mais adequado para devolver ao meio ambiente o que dele foi extraído, não exaurindo as fontes e mantendo o meio ambiente em condições de uma vida mais saudável. De igual forma, é possível reciclar um povo, basta que lhe seja dado acesso ao saber. Certamente aos donos das marionetes isso não interessa. Se não for varrido o lixo ético e moral que assola nossa pátria, Ruy Barbosa estará mais atualizado do que nunca com sua lamentavelmente profética frase com a qual, há mais de um século, advertia que tristemente "crescem as nulidades, agiganta-se o poder nas mãos dos maus, o homem ri-se da honra e tem vergonha de ser honesto".
         É o império (ou a república) do Lixo!
         Compatriotas: RECICLEMO-NOS!



Esta crônica foi classificada em primeiro lugar no IV Concurso Literário Internacional de Poesias, Contos e Crônicas, em português e espanhol, promovido no ano de 2001 pela Associação Artística e Literária A Palavra do Século XXI, com sede na cidade de Cruz Alta / RS.
               
Cláudio Pinto de Sá
Enviado por Cláudio Pinto de Sá em 12/03/2006
Código do texto: T122357
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Sobre o autor
Cláudio Pinto de Sá
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 69 anos
163 textos (23327 leituras)
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Cláudio Pinto de Sá