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Bão?

         Andréa queria  ficar sozinha, após dias de sufoco, no trabalho de horas a fio, embelezando tanta “madame”, para as festas de fim de ano. Desejava refugiar-se onde inexistisse telefone — alguns dias sem  hora marcada para nada. Precisava urgente descansar!
         O sítio de sua família,  no Tamboril, depois de Ermida, pareceu-lhe perfeito. Em contato íntimo com a natureza — flores, pássaros, córrego —  Andréa sentia as forças se renovarem.
         Seria melhor sem a chuva, noite e dia, tornando as estradas escorregadias e perigosas.
         A moça deitava, levantava, almoçava, lanchava, curtia a rede na varanda de papo pro ar, a bel prazer, sem cobranças, sem interferências! Bom, até que interferência ela teve; e duas: uma enorme aranha, verdadeira tarântula, quis se aproximar dela, no entanto foi eliminada de letra. E uma perereca sapeca que pretendeu participar do seu banho relaxante...
         Quando a chuva dava trégua, Andréa  aproveitava para ir à venda, sempre havia alguma coisinha a comprar. E visitava as tias. Sempre a pé, arriscaria muito botar o carro naqueles caminhos.
         Uma tarde, a chuva deu sinal de parar. Andréa  logo pensou na tia Maria e num segundo pôs os pés na estrada.
         A prosa da tia era agradável e o  dia logo chegou ao fim. Andréa apressou-se a ir embora, estava sozinha e teria que passar perto da “Cava”, um local que o povo considerava  assombrado.
         Ao chegar perto, Andréa  sentiu-se muito forte, corajosa e curiosa. Perpassou-lhe em todo seu espírito aquele desejo de enfrentar  uma visita  pela misteriosa “Cava”. Devagar mergulhou na escuridão que caía. O bambuzal denso se unia nas extremidades e fechava o ambiente, formando um corredor escuro. O perpassar do vento pela folhagem compunha uma sinistra harmonia. Andréa, agora, temerosa, ouvia aquele  farfalhar.  Só faltava, ali, para compor o ambiente  e fazer  jus ao apelido  de assombrado, uma trilha sonora de filme de terror. Mas na imaginação Andréa já a ouvia nitidamente.  Então, para dissipar o medo,  dizia para si  mesma:
           — Andréa, você é mesmo corajosa! Avance mais um pouquinho. Se precisar correr, olhe para o chão, que há muito barro. E aquele vizinho da Cava que morreu anteontem? Se ele aparecer... Mais um pouco, Andréa, e você já pode cantar vitória. Suas amigas vão se admirar de sua audácia e coragem.
               E, nesse monólogo, a corajosa menina se sentia já num outro mundo, quando ouviu nitidamente e bem alto, quase a matando de susto, aquela voz, bem perto de seus ouvidos:
              —  “Bão”?
             As pernas se lhe tremeram tanto que não conseguia dar um passo. Conseguiu gritar ela conseguiu. E bem alto, com toda a força.
             E o Sô Zé, com a varinha de pescar, um chapéu  velho de palha, é que se assustou:
            — Que isso, menina? Que faz “ocê” por aqui? “Carma! “Tá cum” medo de quê?
            Mas cadê voz para responder? Gastara a provisão para dar o grito. Agora era só tremedeira.
          O pobre pescador, acendendo a lanterna, iluminou o caminho de volta, e Andréa saiu da “Cava” mais aliviada  e toda a “coragem” voltou em dobro!
 

fernanda araujo
Enviado por fernanda araujo em 14/03/2006
Reeditado em 31/07/2012
Código do texto: T123256
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
fernanda araujo
Divinópolis - Minas Gerais - Brasil
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fernanda araujo