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Um Olhar-me neste 19 de março*


Desperto e o dia de ontem boceja em meus olhares. Um amontoado de acontecimentos a desalinhar qualquer serenidade, contrariando todos os prenúncios de calmaria que entoa o amanhecer.
Há dias em que as emoções, como livros empilhados ao acaso, caem das prateleiras da alma. Há dias de vendavais e de caminhos tortuosos, onde os passos afundam-se nas inquietações que interrompem e pausam o avançar. O tempo parece correr ao contrário, marcando o presente de imagens que já não existem ou que habitaram a memória do desejo. Há dias de pontes ruírem, quando apenas o olhar consegue vislumbrar o outro lado...
Ontem foi manhã de chuva fina...dentro de mim, uma tempestade silenciosa, como convém aos dias de solidão de mim mesma. Feriado na cidade e nas ruas, o silêncio ...no mais profundo de mim, o barulho de todas as sirenes das fábricas, o caminhar apressado dos que estão sempre atrasados e sons de buzinas em horário de rush. Podia sentir os músculos retesados e as mãos a procurarem nas palavras alguma forma de libertação e tranquilidade. Mas as letras não se deixavam escrever. Disformes, nem se sabiam vogais ou consoantes. Pareciam não querer registrar os matizes brumosos das minhas palavras e do dia, em que paz podia ser calada pela voz de apenas um homem.
No mundo, prenúncio de guerra e o grito lancinante de todas as dores que viriam. E o que parecia fisicamente tão distante de mim, eclodia a todo momento à minha volta. No olhar de Thaís, minha filha de 9 anos, pude sentir a repercussão da guerra iminente. Pela primeira vez, ela convivia concretamente com o ódio, com a maldade e a intolerância...a guerra saía do cenário dos livros, dos filmes e aportava na nossa sala, no quarto dela, na casa enfim. Muitas vezes, notei-a com o olhar fixo nas imagens que a TV reproduzia. E ela me fitava, como se eu pudesse ter respostas para tudo que ela assistia.
Em meio ao dia que transcorria, a notícia da morte do amigo Jean Louis, tornou mais cinza o 19 de março...pensei na simbologia deste dia para nós cearenses. É dia de São José, padroeiro do Estado. O sertanejo acredita, que ao chover neste dia, confirmar-se-á um bom inverno. É dia então de esperança!
Fechei os olhos e, em minha pequenez, comecei a refletir...dentro de mim, tantas guerras acontecendo! O mundo tem menos paz, também por isto! Lembrei-me dos abraços que contive por orgulho, dos silêncios que alimentaram meu egoísmo, quando eu sabia que a minha palavra podia ser carícia aos olhares de alguém...lembrei-me do telefonema que não dei, quando havia alguém precisando ouvir a minha voz...pensei nos duelos que travo com os meus sonhos, fazendo-os adormecer, porque os meus olhos não conseguem construí-los à luz do dia, dando-lhes cores e asas...pensei nos medos que faço habitar em meu coração, quando ele quer apenas amar e, eu o bombardeio com os mísseis dos senões, das hesitações, simplesmente, porque de outras vezes, em que me permiti a entrega, houve dor e eu precisei matar meus anseios e desejos...
Sim, ainda existem muitas bandeiras brancas que só podem e precisam ser hasteadas pelas mãos da minha esperança...


Fernanda Guimarães
* Escrito em 2003
Fernanda Guimarães
Enviado por Fernanda Guimarães em 19/03/2006
Reeditado em 25/08/2008
Código do texto: T125450
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Sobre a autora
Fernanda Guimarães
Fortaleza - Ceará - Brasil
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Fernanda Guimarães