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      ODEIO GENTE BOAZINHA

    Tenho encontrado tanta gente "boazinha, simpática, solícita, tudo de bom" que isso acabou me levantando suspeitas sobre bondade demais. Por mais espiritualista que eu queira ser, não acredito e desconfio até a raiz de tudo que é pelo do corpo, de gente incapaz de qualquer maldadezinha, que não mata nem formiga porque é criaturinha de Deus, que faz tudo pra todo mundo porque não quer ser egoísta e mesquinho, porque afinal isso é feio ou pecadinho.
          Tenho algumas razões bastante práticas pra tanta suspeita. Gente assim, tão da paz, tão compassiva, tão alma iluminada, cedo ou tarde se revelam em algumas categorias que criei para ficar mais fácil de entender.
          Tem a primeira turma, que é assim porque foi ensinada desde criancinha a ser boazinha "senão ninguém vai gostar de você". É a classificação vulgarmente conhecida como Vaquinha de Presépio.  E é assim porque não se pensa, não repensa seus condicionamentos e tem medo de se questionar. E se um dia se questiona,  o mundo inteiro desaba sobre suas tão convictas convicções que alguém tem que ser culpado. Mas não o próprio, of course.
          A outra categoria é aquela turma da paz que só é assim pra ter menos trabalho. Porque dizer não pros outros dá trabalho e afeta a popularidade, reduzindo consideravelmente suas possibilidades de obter algo do próximo. Vulgarmente conhecidos como "Melhor se fazer de burro pra comer capim".
          Por último, os mais perdoáveis, os que na santa ignorância, acham que se não fizerem assim, se não forem bonzinhos o suficiente (ou além do suficiente) irão ter problemas com seu cartão de créditos de pecados perdoáveis e vão arder no inferno ad eternum.
          Por essas e outras, andei repensando minhas bondades e resolvi que melhor coisa do mundo é ser muito boa. Pra mim. Porque essa história de querer ser legal e ajudar quem não se ajuda só serve pra uma coisa: te levar pro buraco onde o suposto ajudado se enfiou. E eu não tenho nada com isso.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 24/03/2006
Código do texto: T127761

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai