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crédito imagem :www.ovarvideo.com/ por/premiados00.htm

Apesar desta história parecer um conto, aconteceu de verdade com as personagens descritas, que por acaso ou não, são meus parentes.

ESSES MEUS PARENTES...

Paulinho, um homem de cento e sessenta quilos, um metro e noventa de altura, olhos azuis celeste, cabelos louros, os que lhe sobraram, um biotipo que denunciava a sua descendência alemã, nunca havia ousado se aventurar a sair de sua cidadezinha. 

Paulinho gostava do lugar onde nascera. Ali, construiu o seu mundo e todo o seu trabalho foi direcionado para melhorar a vida do lugar.

Não lhe fazia nenhuma falta conhecer outros horizontes. E apesar de nunca gostar de ir muito além de sua vila, aprendera a amar a Alemanha como amava o Brasil. Tinha a capacidade de viajar, sem sair do lugar, através dos livros, das fotografias e das histórias contadas por seus antepassados. 

Estava sempre alegre, sorrindo e parecia ser uma pessoa feliz. Sua maior felicidade era receber, em sua casa, os amigos e suas famílias para compartilharem a mesa farta. 

Tinha muitos amigos e nunca se deixava seduzir pelos convites para conhecer outros lugares. 

Porém, Paulinho conheceu um amigo chamado Romeu. 

Romeu, ao contrário de Paulinho, tinha gasolina nos pés. 

Nascera numa cidade menor ainda do que a cidade de Paulinho, mas seu espírito aventureiro já o havia levado além mar. 

Ex-combatente na segunda-guerra, Romeu já havia se casado quatro vezes. 

Paulinho, somente uma, e para sempre.

Romeu parecia meio maluco e apesar das maluquices de Romeu, ele também era boa pessoa e por um amigo, era capaz de fazer qualquer coisa que ele, Romeu, achasse boa. 

Romeu resolveu convidar Paulinho para conhecer São Paulo. 

Convencer Paulinho a se atirar na empreitada de enfrentar uma viagem para conhecer a metrópole, não foi tarefa fácil. Como Romeu era um mestre na arte de contar histórias, foi semeando dentro do coração do amigo a vontade de romper com a quase clausura, fazendo despertar à coragem para realização do desejo. 

E lá foram os dois pela estrada, rumo a capital paulista, felizes da vida. Um por ter conseguir vencer a resistência do amigo, ou outro por conseguir vencer a própria resistência. 

Ao chegarem em São Paulo, os olhos azuis de Paulinho mal podiam acreditar.

São Paulo era grande demais para caber na sua expectativa. 

Seu coração parecia haver triplicado de tamanho e batia descompassadamente.

 A sua emoção era maior do que podia suportar. Jamais sequer imaginou a existência de um lugar daquele tamanho. 

Ufa!!!!! Suava pelas palmas das mãos e sua voz foi se esconder quietinha dentro do estômago. Um certo pânico abraçou Paulinho e ele emudeceu-se. 

Romeu observava cada gesto, cada movimento de olhos, cada emoção do amigo. 

Velho de guerra, sabia exatamente o que passava no coração daquele homem de um metro e noventa e cento e sessenta quilos, e soube respeitar o momento.

Romeu também ficou emocionado.

Tão emocionado a ponto de resolver continuar a viagem até São Vicente, para Toinho conhecer o mar. 

Paulinho nem dava mais conta de tanta novidade. Era um momento único. Nunca havia passado por sua cabeça nem mesmo o desejo de ver o mar. 

São Vicente, como cidade, já cabia mais dentro dos sonhos de Paulinho.

Apesar do mar, a cidade tinha um tamanho suficientemente possível de existir, para ele. 

E lá foram os dois se hospedarem na casa de Seu Ary e Dona Ivone. 

Seu Ary e Dona Ivone também eram de outras bandas, eram da terra de Romeu e adoravam receber os amigos quando esses vinham de fora. Era uma maneira de enganar a saudade. 

No dia seguinte, como óbvio seria, lá foram para a praia Romeu, Paulinho e Ary. 

Paulinho, branco como a neve, enorme como homem, chamava a atenção de quem por lá estava. 

A essa altura, ele, entretanto, não queria nem saber e como “quem nunca comeu melado, quando como se lambuza”, pensou: - que se dane o mundo, hoje eu vou me esbaldar. 

Cheguei até aqui, agora vou aproveitar. 

Romeu e Ary gostavam de tomar todas. Apenas nos dias de folga, mas gostavam de tomar todas. Alugaram, por causa disso, uma dessas carrocinhas que fica na praia vendendo caipirinha. E começaram a entornar. Paulinho, que só bebia cerveja, porque isso ele bebia desde de criança, resolveu aderir à idéia dos amigos e começou a entornar todas também. 

E o dia foi passando, e eles foram bebendo, bebendo, até que o dinheiro acabou. 

Os três resolveram, então, voltar para casa. Paulinho parecia uma melancia, de tão vermelho. Seu corpo ardia, mas ele nem percebia, estava anestesiado. 

Romeu e Ary já eram mais resistentes e mesmo assim, não estavam sob controle. 

Romeu no meio de suas impulsões resolveu voltar para São Paulo e levar com ele To amigo Paulinho.

Dona Ivone, preocupada com a bebedeira, esvaziou os quatro pneus do carro para evitar que os dois pudessem causar um mal maior a eles e a terceiros. 

Romeu não se fez de rogado e virou-se para o amigo e disse-lhe:
- Paulinho, você fica ou você vai?
- Vou com você. Amigo não abandona amigo, respondeu. 

E lá foram os dois para a rodoviária, largando para trás o carro com os pneus arriados. 

Romeu morava em São Paulo e conhecia essa cidade como a palma de sua mão. Mesmo de cara cheia, São Paulo era para ele apenas um grande torrão.
 
Cansados e dopados pelas bebidas, a subida da serra foi um embalo para o sono. E os dois dormiram profundamente. 

Romeu resolveu descer no meio do caminho e tentou acordar Paulinho, que a essa altura, estava praticamente desmaiado. Não conseguindo, largou Paulinho dentro do ônibus e foi embora.
 
Paulinho foi acordado pelo motorista na rodoviária. Assustado, procurou por Romeu e descobriu-se sozinho na desconhecida cidade de São Paulo, sem dinheiro no bolso e sem nenhum endereço na mão.

 Na sua ingenuidade, pensou:
-Vou procurar por um hotel perto da rodoviária, porque Romeu vai me procurar e assim fica fácil de me achar. 

Paulinho, não tinha a menor idéia do real tamanho de São Paulo. E lá foi ele, para um hotelzinho espelunca, na esperança de ser encontrado. 

Passado o porre, Romeu se deu conta do ato irresponsável de que protagonizara. 

Sabia que Paulinho era pessoa de bem e sabia também que, a família dele iria lhe arrancar o couro, caso algo de ruim acontecesse a Paulinho.

Ficou desesperado. 

- Cadê Paulinho? Era uma pergunta sem resposta. Colocou anúncio nos jornais de procura-se, andou por perto da rodoviária, pensou em ligar para a família de Paulinho para saber se ele havia aparecido na cidade, mas não se atreveu a tanto.
 
Foi quando teve uma luz. 

Resolveu acionar a polícia na busca do amigo perdido. 

As características de Paulinho facilitavam a busca. Um metro e noventa, cento e sessenta quilos, branco/vermelho do sol, não era uma pessoa que passava despercebida. 

Enquanto isso, Paulinho, tranqüilamente, passava os seus dias naquele hotel com a certeza de que seria localizado por Romeu. Não tinha pânico em seus sentimentos, apenas estava apreensivo pela falta de dinheiro. 

De repente, sirenes tocavam insistentemente na frente do hotel. 

Paulinho incomodado pelo barulho, foi para a janela ver o que estava acontecendo. E para sua surpresa, em meio aos policiais, Romeu se movimentava agitadamente. 

- Que alívio. Pensou ele. 

E gritou: 

- Romeu, Romeu, o que faz aí embaixo? 

- Filho-de-uma-égua, há dias estou a sua procura. Você nem para dar um telefonema. 

- Como eu poderia fazer isso, se eu não tinha o número de seu telefone e muito menos dinheiro? 

- Pensasse em alguma coisa, respondeu Romeu. 

Paulinho desceu as escadas, aliviado foi abraçar Romeu. 

Romeu para se redimir da loucura que havia praticado, pegou Paulinho e o levou de volta a sua cidade natal. 

Paulinho, nunca mais quis saber de viajar com Romeu. 

E esta história, que parece ficção, e de final feliz, Paulinho e Romeu devem a estar discutindo com São Pedro, para descobrir de quem é a culpa pelo acontecido.






Rosa Berg
Enviado por Rosa Berg em 24/03/2006
Reeditado em 22/11/2008
Código do texto: T127934

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Sobre a autora
Rosa Berg
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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