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Verossimilhança


                                                                                   
O uso de frases curtas nem sempre é recomendável na literatura. Parece-me que passamos as coisas adiante, sem levarmos em conta as possíveis emoções do leitor, que não pode penetrar nos pensamentos do criador e, nem visualizar os elementos sobre os quais este escreve. E se nos dá o prazer de sabê-lo nosso leitor é preciso que saibamos prendê-lo pelas descrições minuciosas, fotográficas, capazes de fazê-lo inserir-se em nossas histórias, tal a verossimilhança  com que é mobiliado o mundo criado, quase visível, a causar impacto.

Esse é o objetivo do escritor junto àqueles que  apreciam a literatura de ficção.

Quando Mariana lançou seu livro Pingos da Noite, em nossas oficinas de Criação Literária, em 2000, uma amiga psicóloga disse-me que foi às lágrimas ao presenciar o sofrimento de Caroline, a narradora personagem, quando perdeu seu hâmster de estimação. Segundo ela, estava ali presente todo o processo de crescimento da menina e as transformações por que estava passando. Após a publicação do livro, inúmeras foram as casas que passaram a ter um hâmster, como animal preferido. E Pingos da Noite era um personagem de papel, nunca existiu, todavia o impacto que causou entre os leitores, fez com que tivessem o desejo de tê-lo em suas casas.

Esses dias, um senhor amigo e conhecido de nossa família, dizendo-me que havia lido A Coruja – das – Torres, surpreendeu-me com o seguinte comentário: “Mais que mulherzinha avoada não é? E olhe que o marido gostava dela. E afinal os pais nunca ficaram sabendo”?

Sorri apenas. Como dizer a ele que Berenice era uma personagem de papel, assim como Antera?

Mas no fundo é isso que se quer ouvir. Quando o texto é capaz de fazer com que o leitor se pergunte se é imaginação ou confissão, é porque tornamos possíveis de vivência, as mazelas e vicissitudes dos nossos personagens.

Perguntei-lhe se havia gostado e ofereci-lhe o livro que reunia outros contos. Abraçou-me e na sua pureza, desarmado de malícia, respondeu-me: “Gostei, afinal a gente tem que ler de tudo não é mesmo?”.


Bem, não sei  bem o que quis dizer com aquele “tudo” mas tudo bem. Era meu leitor e sempre mandava pedir alguns textos para leitura, antes mesmo que fossem publicados.

Pelo instinto, pela irreverência natural expomos nossas idéias e convicções e, é natural,  que nos tornemos vulneráveis à crítica. Às vezes, construtivas, outras nem tanto. Todavia, precisamos de maturidade artística para aceitá-las e, delas tirar proveito, até o fim da nossa caminhada.

Lembrei-me de uma amiga, a Márcia, arquiteta e pintora. Quando fez seu primeiro vernissage, uma conhecida, querendo agradá-la, disse-lhe: “Que lindas as molduras, Márcia”.

Concordou risonha pelo que ouvira. A moda exigia enormes molduras e a pintura tornava-se minúscula, não perdendo, porém, o seu status quo. Comentava sempre o fato com um humor que cativava,  pois tinha a maturidade necessária para encarar a situação.

Escolhi umas transparências muito bonitas para a capa do livro, que reúne meus contos e crônicas. Espero que ninguém me diga que levou porque gostou das transparências, mas se assim for, me considerarei feliz pelo fato de ser lembrada.

Decidi não publicar alguns contos, mais temperados, com foco narrativo em primeira pessoa, com receio que algum leitor me perguntasse: “Teu marido sabe disso?”


Eliza Fernandes
Enviado por Eliza Fernandes em 24/03/2006
Reeditado em 01/04/2006
Código do texto: T128076
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Sobre a autora
Eliza Fernandes
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil
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Eliza Fernandes