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Batizado de Boneca


               Edite era nossa vizinha. Tínhamos a mesma idade, frequentávamos  a mesma igreja,  a Matriz do Divino Espírito Santo. Mas havia uma grande diferença entre nós: Edite vinha de uma família rica e nós, filhas de um humilde  ferroviário. No entanto, brincávamos juntas e essa diferença  para as crianças de mentes puras e sem preconceitos nada significava.
           Só que um dia percebemos isso na pele. Edite levou-nos  um convite para o batizado de sua boneca! Convite impresso? Batizado de boneca? Sim, era isso mesmo. Que luxo! Ficamos ansiosas, esperando o domingo  para participar da inédita festa.
               À hora marcada,  lá estávamos nós,  só as meninas, à espera do batizado. Parecia um clube da Luluzinha. Aquelas mais “poderosas” até levaram presentes para a boneca. A festa aconteceu no quintal da casa, todo sombreado por velhas e imensas  árvores frutíferas.  Havia um enorme forro de mesa no chão, onde colocaram vários docinhos, balas, bolos e biscoitos. Nossos olhos cresceram! Nunca  havíamos participado de um evento de tal porte. Em nossas brincadeiras, era tudo no reino do  “faz de conta”. Representavam-se os quitutes com pedrinhas, torrões, folhas, coisas assim.
               Houve, enfim, o batizado a que quase ninguém deu importância. Nossa cabeça estava era na festa das guloseimas.  Mal podíamos esperar a hora  de saborear um pouco  de tudo  aquilo. E havia um outro detalhe importante: nós nos encontrávamos longe dos olhares vigilantes de nossa mãe. Quando participávamos de alguma  festinha, o que raramente acontecia,   podíamos pegar apenas um docinho e agradecer, mesmo que a  dona da casa insistisse no repeteco. Era um costume  que a  Lúcia menina   não entendia. Porém no batizado da boneca de Edite, num instante, tudo foi devorado! Que beleza!
              Na volta para casa  só um pensamento fervilhava na cabeça: a minha boneca, Maria de Lourdes,  bem que merecia ser batizada com essa mesma pompa. Merecia... E não foi.
             Hoje, a Maria de Lourdes é quase sessentona, poderia, entretanto, ser batizada a pretexto de ter acesso ao céu das bonecas. Será que em batizado de adulto  também pode-se fazer  uma festa? Sobre o forro de mesa no chão, todas as guloseimas do mundo! Conseguiria reunir um clube de Luluzinhas? Vou  pensar nisso. Nunca é tarde.
fernanda araujo
Enviado por fernanda araujo em 25/03/2006
Reeditado em 22/10/2011
Código do texto: T128329
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
fernanda araujo
Divinópolis - Minas Gerais - Brasil
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fernanda araujo