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Heróis


Para não existirem qualquer tipo de equívocos sublinho desde já o facto de ser anti-nazi e por achar que as atrocidades cometidas pelos nazis tiveram a anuência calada de toda a população e combatentes, que embora muitos não fossem nazis, ao permitirem, ao desconfiaram dos crimes tiveram, nem que seja em parte, a responsabilidade moral do que se passou. Tal não invalida no entanto a nobreza desse grande povo que se soube levantar das cinzas a que a Alemanha foi reduzida em 1945 e souberam reerguer em democracia a sua grande nação.
Quando somos pequenos e desconhecemos alguns dos factos da vida mais importantes, pensamos que quando existem heróis estes só fazem parte do lado da contenda que decidimos apoiar, idolatrando-os e sonhando ser como eles, tentando seguir o seu exemplo moral e ético que nos fez tê-los como exemplos.
Não fugi a este aforismo, e os meus primeiros heróis foram os aviadores aliados da II Guerra Mundial, dado que desde que comecei a ler que devorei primeiro bandas desenhadas sobre este conflito, e mais tarde livros completos. Desde que nasci que detesto Nazis, pois tive o privilégio dos meus pais serem democratas lúcidos que me elucidaram sobre o terrível regime que governou a Alemanha entre 1933-1945; aprendi a odiar a Suástica e por isso os meus ídolos aéreos que eliminavam dos céus aqueles aparelhos malditos com a cruz Suástica só podiam ter a minha admiração ilimitada. No entanto desde cedo que também reconhecia mérito nos pilotos do eixo, de longe os com mais vitórias na guerra, (o maior ás alemão obteve mais de 300 vitórias aéreas contra pouco menos de 80 do mais dotado dos pilotos aliados) justificado pela sua bravura e perícias superiores e pelo facto de terem mais, mais alvos potenciais adversários contra eles…
Os anos passaram, e comecei a ler mais, comecei a ler de várias e diversificadas fontes e observei por isso o conflito do outro lado, do lado perdedor…Por exemplo muitos pilotos alemães eram militares puros, tendo de nazi muito pouco, sendo que acima de tudo lutavam pela Alemanha e não por Hitler e a sua política ignominiosa. Eram homens sérios que nada tinham a ver com atrocidades cometidas nos campos de concentração ou os massacres de aldeias inteiras em terras soviéticas ou ainda o massacre de prisioneiros aliados; podiam-se ter revoltado, mas a revolta equivaleria a um bilhete só de ida para um Campo de Concentração, isto é discutível, pois seriam ídolos da Alemanha moderna, ídolos mortos que não a poderiam ter ajudado a crescer após o fim dos combates …Aprendi que eram homens duma extraordinária bravura que em muitos aspectos batiam em classe e na arte do combate aéreo os aliados…No último ano de guerra a Alemanha graças a medidas excepcionais, bem ao estilo do organizado e metódico povo germânico conseguiu produzir dezenas de milhares de aviões, inclusive do melhor caça de toda a guerra, o extraordinário Me 262, o primeiro caça a jacto da história a entrar em serviço, e com um desempenho que o fazia estar alguns anos à frente dos seus inimigos (um caça que no pós-guerra foi estudado até à exaustão e muitas da suas qualidades foram adoptadas pelos Estados Unidos, União Soviética, Inglaterra, França,) sendo que no entanto uma bem estruturada ofensiva aliada bombardeou (além das cidades alemãs onde morreram centenas de milhares de civis inocentes) as refinarias, limitando em muito a produção de combustível, perdidos que estavam os campos de petróleo dos nazis reconquistados pelos Soviéticos; tal teve sérias repercussões na mobilidade de todo o exército alemão, à qual a Força Aérea não escapou impune, bem antes pelo contrário, devido ao grande consumo de combustível por parte das suas aeronaves Não era raro o dia em que formações de mais de mil aviões sobrevoavam a Alemanha, sendo que os nazis só podiam lançar contra estes colossos pouco menos de 200 caças, isto no melhor dos cenários…A piorar as coisas as formações de bombardeiros eram protegidas por inúmeros caças que também destruíam os campos de aviação limitando em muito a acção dos Me 262 e outros caças a hélice entretanto desenvolvidos e de desempenho senão superior, pelo menos igual ao dos seus adversários. Segundo a Lei de Murphy, quando uma coisa corre mal só pode correr pior e isto aplicou-se aos pilotos alemães no final da guerra – depois de quase 6 anos de combates, muitos dos pilotos experientes tinham morrido, sendo que restavam apenas alguns do início da guerra; devido à penúria de combustível e de tempo, a preparação dos novos pilotos era deficiente e por isso a sua sobrevivência em combate limitava-se a algumas horas; mesmo tendo em diversas ocasiões aparelhos superiores não dispunham de perícia à altura deles e por isso eram facilmente abatidos por americanos e ingleses cujo treino era de facto superior, bem como o seu número; até os Soviéticos, claramente mais inclinados para os combates terrestres e poucos dados a operações de combate aéreo de caris estratégico (isto é, operações em grande escala envolvendo as tais esquadrilhas de centenas ou milhares de aviões, sendo que acima de tudo as suas operações eram de caris táctico, de apoio directo às forças no terreno com caças bombardeiros ou mesmo caças de notável desempenho que a partir de 1942 começaram a invadir em enorme número os céus da frente Leste) se superiorizaram aos nazis…E depois…bem depois a desorganização e burocracias nazis emperraram o que restava daquela que foi em tempos a máquina de guerra mais poderosa provavelmente de toda a história militar bélica. Em suma: estes pilotos destemidos sabiam que ao descolarem tinham pela frente uma tarefa impossível, sabiam e nem por isso baixavam os braços, chegando a alcançar e a desenhar nos céus actos duma enorme e pouco revelada heroicidade, batendo-se até ao fim com brilhantismo contra um inimigo mais numeroso, não por serem nazis fanáticos mas por serem bons alemães que amavam acima de tudo a sua pátria e por horrorizados assistirem ao seu implacável desmoronamento.
Quando por fim chegou o dia 8 de Maio de 1945, o dia doa armistício, os pilotos receberam ordens para alinharem os seus aparelhos de forma a receberem as forças aliadas que a partir dai seriam os seus proprietários; os aviões que não foram testados pelos anglo-americanos e soviéticos foram inutilizados, e nesse dia algo morreu dentro destes amantes dos ares, algo morreu quando viram as suas naves para sempre pregadas ao solo, companheiras de tantas e nunca relatadas batalhas, pilotos que tiveram o azar de lutar pelo lado errado, dispostos a baterem-se até à morte, adiando um fim que todos adivinhavam para breve mas no qual se recusavam a acreditar, apesar de desgastados pela louca cadência dos combates.
Admiro a tenacidade e a garra imensa dos Soviéticos que à beira da derrota conseguiram evita-la e empurrar os agressores nazis até Berlim sendo os principais responsáveis pela derrota deles ao concentrarem junto de si o grosso das forças nazis que teriam impossibilitado a invasão da Normandia e talvez alterado o curso da guerra a Oeste; respeito os Ingleses por também se terem oposto a Hitler duma maneira exemplar; admiro os resistentes dos países ocupados cuja bravura emperrou tantas e tantas vezes a máquina de guerra alemã; respeito o extraordinário esforço bélico americano, sem o qual a Alemanha nunca teria sido sobrevoada e destruída por centenas de milhares de aviões produzidos na protegida e longínqua América, mas admiro imenso a tenacidade dos pilotos alemães, cuja recompensa foi dada em 1955 quando a força aérea Alemã foi ressuscitada (Luftwaffe) e teve ao seu comando alguns dos pilotos que um dia estigmatizei, mas que um dia soube reconhecer o seu real e imenso valor, sendo que a partir desse dia foram e serão sempre parte dos meus
Heróis

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Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 26/03/2006
Código do texto: T128916

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Miguel Patrício Gomes
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