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Por que voltei.

   Dei conta de mim com pensamento solto, tentando compreender  por que voltei a escrever. Há alguns anos, pendurei, digo melhor, encaixotei a caneta. Convenci-me definitivamente de que não tenho mais bons olhos para ler o cotidiano e dele arrancar matéria para uma crônica, um artigo, um bilhete que seja. Incapaz, sim, leitor, se me quer a verdade. Sentia-me incapaz de escrever.
   Acomodado,  meus critérios de observação e de inspiração se haviam enrijecido. Duros , não reagiam ao viço do tempo presente. Secos, não o bafejava o vento da novidade.
   Um ultrapassado ex-feitor de crônicas era eu. Um cego apenas. Guardava, contudo,  os escritos pretéritos no sacrário de minhas memórias como pérolas sagradas.
   Aborrecido e cansado, entendi que assim se deve conduzir  quem não escreve mais. Lendo aqui e alhures as boas coisas das produções alheias, eu me mantinha à margem da Literatura. Velho barco no cais da observação, balançando nas ondas calmas dos escritos dos bons. Assim, comecei a acreditar que a finalidade dos barcos é realmente  a de viver no porto. Alto mar e águas revoltaas  são são para eles. E , acreditando na minha própria mentira, nutri a ilusão de que ser infeliz é a regra.
   A exceção me chegou com cara de menina e olhos de mulher. Veio viva e risonha. Diabólica até. Convidou-me a deixar o porto. Desafiou-me, na verdade:
   - Não quer concorrer comigo ? Disse-me ela.
   Ah, não. Nessa altura, meus brios falaram mais alto.
   - Como é que é ?
   Nessa mesma noite, a caneta  saiu da velha caixa onde se quedava esquecida.Pôs-se a falar e a debater-se no papel, escrevendo como dantes. O pensamento, com suas tábuas ordenadas, voltou a ser martelado. Os olhos se abriram e pude ver novamente o mundo.Vend-o não resisti à vontade de colocá-lo na estreiteza e limitação de umas linhas. Deixaei meu lugar na assistência e, saltando sobre o picadeiro, quis, bem perto do palhaço chamado mundo, ouvir-lhe as pilhérias e ajudar a repeti-las.
   Foi uma nova amiga, no verdor dos anos, inexperiente e imatura como quem tem apenas dezoito e poucos anos, quem me convidou a enxergar por dentre a sua insipiente lavra o reinício da minha, quiçá insipiente com "s" e com "c" também.
   E o diabinho continua  produzir ininterruptamente. Tem bons e bonitos olhos ela. Vê longe.
   Eu, não. Fito unicamente meus pés. E, dessa diferença entre  um passo e outro, vou dizendo a alguns o que penso sobre a cadenciada e letárgica marcha que é existir.
     
Wanderlan
Enviado por Wanderlan em 27/03/2006
Código do texto: T129336
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Sobre o autor
Wanderlan
Fortaleza - Ceará - Brasil, 50 anos
10 textos (457 leituras)
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