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A REFORMA
Sandra Fayad

Em meados do ano passado, decidi colocar em prática um planejamento que havia iniciado no ano anterior: reformar minha casa.
Para viabilizá-lo, alterei alguns outros planos e concentrei-me no objetivo final, seguindo os passos descritos em cartilhas, que nos ensinam o caminho para o sucesso de um empreendimento dessa natureza.
Desde criança que, volta e meia, alguém me rotula de forte, corajosa, lutadora, embora eu não concorde totalmente, pois já me acovardei, fracassei e desisti muitas vezes, em situações que outros seguiram em frente e obtiveram bons resultados.
No entanto, por hábito, na maioria dos casos em que me disponho a executar um trabalho, só me sinto liberada da responsabilidade quando o vejo totalmente concretizado, especialmente porque procuro planejá-lo em detalhes. Normalmente, chego a incomodar os que me rodeiam, porque parto de pesquisas e aconselhamentos técnicos minuciosos para compreender todas as suas etapas e riscos.
Assim é que procurei conhecer e seguir as regras definidas como adequadas e aplicáveis ao empreendimento de construção e reforma de uma casa. Contei com uma margem razoável de erros e imprevistos, capitalizei-me, considerando que, por certo, haveria majoração dos valores estimados para os custos, e reforcei minha resistência física e emocional, consciente de que sempre há uma ou outra dificuldade a mais a ser administrada.

Feito isso, lancei-me de corpo e alma à execução do projeto previamente elaborado por um Escritório de Arquitetura, em conformidade com as normas técnicas.
Como era previsível, os familiares e amigos envolvidos não se negaram a colaborar, desde que pudessem conviver o mínimo possível comigo, porque sabem o quanto sou incapaz de transigir a uma programação predefinida.
Nos primeiros cinquenta por cento do tempo de execução do trabalho, os que ainda não me conheciam ficaram admirados e até entusiasmados com a minha capacidade de organização, mas acabaram percebendo o quanto as exigências comigo mesma e com os demais incomodam.
Como normalmente acontece, nos últimos momentos - os cruciais - fico sozinha ou vou sendo tolerada por pura falta de opção, a despeito do entendimento deles de que o meu espírito de luta e coragem ficou mais uma vez comprovado.
Foram longos 8 oito meses de acompanhamento diário da obra, desde a leitura e interpretação de leis aplicáveis a residências em área urbana e obtenção de licenças para a demolição parcial da casa a pesquisas de preços, seleção e catalogação de materiais, contratação de serviços e mão de obra especializados.
A boa surpresa ficou por conta do aprendizado pessoal com cada um dos prestadores de serviços.
Convivi nesse espaço de tempo com pessoas maravilhosas, como o Administrador, extremamente organizado e detalhista; o Encarregado, detentor de equilíbrio pessoal e conhecimento invejáveis; o Ajudante de pedreiro, prestativo, espirituoso e bem humorado em qualquer situação; o Serralheiro, a quem não creditei confiança, e que demonstrou grande competência e criatividade; o Pintor de Paredes, trabalhador imbatível e incansável. Todos provaram o tempo todo que inteligência nada tem a ver com número de anos em bancos escolares e que trabalho em equipe está incorporado naturalmente ao dia-a-dia deles.
Mesmo assim, o cansaço é enorme.
Exausta, sento-me diante de uma planilha de mais de vinte páginas, onde fui relatando diariamente cada passo da execução da obra e decido discordar da afirmação de Fernando Pessoa que “Deus às vezes usa o cansaço, para que possamos compreender o valor do despertar”.
Ainda bem que é “às vezes” porque tenho a impressão que se eu começar a dormir, desejarei dormir mais e mais. O valor do despertar será próximo de zero, pelo menos por um bom tempo.
Reconfortante seria aceitar como verdadeira a frase de Roosevelt: “A felicidade não está em possuir mais dinheiro, mas na alegria de conseguir o almejado, na excitação do esforço criativo”. Neste momento eu diria ao Presidente que minha criatividade está de férias por prazo indeterminado e que felicidade combina mais com a paz da mordomia de um bom SPA.
Desta vez, nem meu ídolo Kalil Gibran consegue convencer-me de que ”ser indolente é tornar-se estranho às estações e afastar-se do cortejo da vida, que avança com majestade e orgulhosa submissão rumo ao infinito.” E que, quando trabalhamos, somos “uma flauta através da qual o murmúrio das horas se transforma em melodia.”.
Nunca desejei tanto trocar o cortejo da vida por uma rede à sombra de um coqueiro, em uma praia deserta da Bahia, onde eu possa incorporar a leveza do espírito baiano ao som da melodia do mar topando com as pedras, ou escorregando pela areia branca e fina até os meus pés.
Sandra Fayad Bsb
Enviado por Sandra Fayad Bsb em 29/03/2006
Reeditado em 08/01/2012
Código do texto: T130491
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Sandra Fayad Bsb
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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