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Açúcar amargo

Há muitos anos eu me tornei um fervoroso crítico da imagem do Brasil na Suíça e na Europa ocidental. Há muitos anos que percebi que o Brasil era e ainda é visto apenas como o país do Samba, do Axé e mulher fácil e vulgar. Eu como brasileiro conhecedor e amante da nossa rica e variada cultura sempre me opus à essa etiqueta, me recusando a ceder à imposição que a própria comunidade brasileira aqui na Europa tenta exercer.

Minha resposta a tudo isso é um grande e sonoro não. Eu me recuso a aceitar que o Brasil com seus 180 milhões de habitantes seja um país de “malandros” e “garotas fáceis”. Não, eu me recuso a aceitar que nossa música se resuma a bundas mexendo em busca de marido e ou dinheiro fácil. O Brasil é lindo, é imenso, e tem mil faces, e por mais que os próprios brasileiros aceitem e sustentem essa imagem degradada e degradante do nosso país, eu vou lutar sempre para mostrar o “outro” Brasil.

No entanto, até mesmo essa minha tenácia romântica e ingênua pode as vezes ceder diante dos fatos indiscutíveis que a realidade insiste em me mostrar. Em 14 anos de Suíça ja não tenho dedos para contar as brigas, as confusões, as falcatruas, as extradições, as pessoas que se aproveitam do sistema de auxílio desemprego e ainda se vangloriam desse triste fato. Ontem mais um capítulo foi escrito nessa triste e lamentável história. Em um dos locais em Zurique, que propõem música brasileira e por tanto se tornou ponto de encontro dos nossos patrícios, fui testemunha ocular de mais uma vergonha.

Uma briga com direito a copo quebrando na cabeça e voando pelo salão. E o que mais deixa triste é a postura de algumas pessoas apoiando aquele ato de vandalismo primitivo e animalesco em pleno terceiro milênio, onde o homem já chegou em Marte, mas ainda briga a punhos como primatas ensandecidos. Passado o espetáculo repugnante, eu ouvi comentários como “Neguinho tá pensando que é o quê?” e “está acontecendo com as mulheres o que acontecia com os homens”. Eu acredito que ela se referia ao fato de uma mulher ter sido o catalizador da confusão, mas no fundo não faz diferença, o resultado é o mesmo e não justifica a agressão e a briga que seguiu.

Felizmente não houve tiro dessa vez, nem facada, como já foi o caso em outras ocasiões. Infelizmente mais uma vez o perdedor maior foi o nosso país que teve sua imagem atrelada à escória da sociedade que trouxe os seus péssimos costumes junto consigo, mostrando incapacidade de adaptção à uma sociedade civilizada onde ninguém se orgulha de “quebrar o barraco”.

Eu lamento profundamente pelos “garotos” da banda, que são extremamente carismáticos e competentes, e que tem que encontrar “clima” para seguir tocando após um incidente do gênero. Eles se dispõem a nos dar um pouco de diversão, tocando os sucessos que embalaram nossa juventude e é esse o pagamento que eles recebem, uma verdadeira afronta ao bom senso e à boa educação. Se dependesse de mim, essa “turma” ficaria sem seu axé e seu funk deploráveis, já que são incapazes de se comportarem em sociedade.

Um lugar a menos para sair em Zurique, até que a banda podre acabe com todos e transforme a noite de Zurique em um único e imenso baile funk no seu sentido mais pejorativo.

Ullisses Salles 03.04.2006
Ullisses Salles
Enviado por Ullisses Salles em 03/04/2006
Reeditado em 03/04/2006
Código do texto: T132887
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Sobre o autor
Ullisses Salles
Suíça, 40 anos
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