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A VINGANÇA DO CEGO DE OLHOS AZUIS

Ele tinha dois olhos de vidro, grandes e azuis, eram dois belos olhos, mas eram de vidro, insensíveis à claridade, ao belo, ao feio, às cores; nunca viram a exuberância de um nascer de sol, nem a magia dolente de um sol se pondo; nunca viram um campo cheio de flores nem um canavial flechado cobrindo de ouro o massapê preto e fértil do nosso Recôncavo. Ereto de porte, ativo, tinha sempre numa das mãos a sua bengala mágica, que o guiava com a maestria de um chamador de bois; ela era, verdadeiramente, os seus olhos: indicava obstáculos, perigos; companheira inseparável, escrava e amiga. Por onde ele passava deixava espargir de dentro da sua escuridão a bela luz fascinante da alegria, do bom humor, de quem tinha na alma os olhos de Deus. Sentidos aguçados, aferidos por um diapasão especial, dava-nos a impressão de que via mais do que todos nós. Tinha o dom de comprar e vender; era um negociante inato; comprava e vendia tudo que representasse valor; mas a sua especialidade era vender carros. Parece incrível! Um cego negociante de carros! – diziam todos abismados. Ele conhecia  todos   os   carros   da   cidade;   bastava  passar roncando pela sua porta e ele sabia o dono, o ano, a marca, a cor e, mais ainda, os defeitos.
Certa feita, seu Rivaldo, um cidadão respeitável e muito escrupuloso nos seus negócios, resolvera vender o seu chevete, um carro velho e cheio de problemas, dos mais simples aos mais graves, que estavam lhe dando muita dor de cabeça. Queria  desfazer-se do bagaço por qualquer preço e o expôs à venda. No dia seguinte foi abordado por aquele cego de olhos azuis que se mostrou interessado em adquiri-lo. Receoso, entretanto, de fazer negócio com um deficiente visual e, depois, poder ser tachado de inconsciente e aproveitador pelas pessoas daquela pequena cidade do Recôncavo, onde ambos viviam e conviviam pacificamente,  recusara-lhe  a oferta, peremptoriamente, dando uma desculpa esfarrapada qualquer, que lhe veio à mente naquela hora.
O carro foi vendido e dias depois os dois se encontraram: o ex - proprietário escrupuloso e o cego de alhos azuis:
– Seu Rivaldo, o senhor não quis me vender seu chevete..., eu lhe pedi a preferência, o senhor disse que não ia vendê-lo e logo depois o fez sem me dar a mínima... onde é que está a nossa consideração?
Sem saber como se desculpar, mas convicto de que tinha procedido dentro de princípios éticos, gaguejou um pouco na resposta, mas terminou confessando os verdadeiros motivos:
  Meu amigo, aquele carro não servia pra você; estava cheio de defeitos de ordem mecânica e de lanternagem e, certamente a minha consciência doeria se lhe passasse uma bronca daquele tamanho. Você compreende, não?
– Eu sabia, seu Rivaldo, todos os defeitos de seu carro e não sou nenhuma criança, nem cego... – e passou a enumerá-los, um a um, com a segurança de quem conhece do ramo – além disso, baseado na nossa conversa, eu já tinha um comprador certo e deixei, portanto, de ganhar um dinheirinho. Mas não tem nada não, fica pra próxima.
Passado algum tempo seu Rivaldo desejou comprar um videocassete, para se deleitar com os filmes de sua preferência e evitar os enlatados que a televisão nos impinge.  Todavia, sem o conhecimento adequado para a escolha de um bom aparelho, procurou se informar antes de adquiri-lo e por uma dessas coincidências da vida encontra-se casualmente, esquecido já do velho incidente, com o cego de olhos azuis e trata do assunto: – eu sei que você lida com aparelhos eletrônicos e talvez esteja em condições de me orientar na compra de um videocassete: um   que  seja  de  boa  qualidade,   que   tenha  uma   boa imagem, para que eu possa desfruta-lo nas minhas horas de lazer.
– Seu Rivaldo, diz o cego de olhos azuis, o senhor parece que foi iluminado na hora que me encontrou, porque eu  não só tenho um bom conhecimento do ramo, porque lido com isso já faz algum tempo, como, coincidentemente, tenho um aparelho, semi - novo, que vai cair como uma luva para satisfazer aos seus anseios: é um SONY, a melhor marca que existe no mercado; com quatro cabeças que lhe permitem uma imagem da melhor qualidade; já tem alguns candidatos interessados, mas se o senhor quiser eu lhe darei a preferência.
Seu Rivaldo logo se interessou e foram juntos na  mesma hora dar uma espiada no dito cujo aparelho. Fizeram o teste e seu Rivaldo ficou certo de que aquele dia era o seu dia de sorte e sem mais delongas fecharam o negócio.
Chegando em casa, reuniu a família para dar a boa notícia e convocou os filhos para lhe ajudarem na instalação do aparelho, já que ele era meio desajeitado para esse tipo de manuseio.
Concluído os trabalhos de instalação, ele obviamente desejoso de fazer uma estréia a altura de sua ansiedade,   pensou   na   película   de   sua   preferência – Perfume de Mulher – e saiu para buscá-la numa locadora em local próximo. Mais uma vez teve sorte (pensou ele) de  encontrá-la  disponível.  Voltou  para  casa  prazeroso , reuniu a família e pediu ao filho mais velho que a colocasse no aparelho. Refestelou-se no sofá, colocou as pernas sobre a mesinha de centro e ficou naquela posição perfeita para assistir confortavelmente ao desempenho genial de Al Paccino.  O filho, mais afeito a essas coisas modernas da eletrônica,  fez todas as tentativas possíveis e impossíveis e o filme não encaixava, até que, numa dessas,  descobrira que a fita era VHS e o videocassete um  BETAMAX obsoleto momento em que se virando para o pai, com a cara de quem está querendo gozar, mas guardando o devido respeito e disse-lhe: – Meu pai o cego de olhos azuis lhe enrolou, esse filme não entra nessa máquina de jeito nenhum, nem existe mais filme pra ela!
Seu Rivaldo levantou-se fulo de raiva, pegou o filme, olhou-o por alguns segundos e disse-lhe: – Pode não
entrar nessa máquina mas vai entrar com máquina e tudo goela abaixo daquele cego desgraçado!. E partiu rumo à casa do negociante de carros e outras bugigangas, que já estava à porta, com o cheque na mão para lhe ser devolvido, porque tudo não passou de uma brincadeira do cego dos olhos azuis para provar a sua igualdade de condição.

Raymundo de Salles Brasil
Enviado por Raymundo de Salles Brasil em 03/04/2006
Código do texto: T132981
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Sobre o autor
Raymundo de Salles Brasil
Salvador - Bahia - Brasil, 83 anos
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Raymundo de Salles Brasil