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ALUGA-SE UMA VIDA 


                                 
           “ (...)But if my life is for rent and I don't learn to buy
                                                    Well I deserve nothing more than I get
                                                    Cos nothing I have is truly mine...”
                                                          (in “Life for rent”, Dido)



                 Se o inglês da turma não tá lá aquelas coisas, pra facilitar vou fazer uma traduçãozinha meio livre do que está aí em cima, senão vocês não vão entender chongas do que eu quero dizer. O lance é mais ou menos o seguinte: “Minha vida está pra alugar e eu não aprendo a comprar, então eu não mereço mais do que tenho porque tudo que tenho não é verdadeiramente meu”. Imagino que isso dispense muitos comentários, apesar de estar fora do contexto da música. Mas o mais importante está aí mesmo. Dá pra dizer isso de cátedra, já que me tornei uma especialista em alugar minha vida pros outros. Coisa que a donzela aqui, devidamente auxiliada pela doutora das idéias, seu Freud, seu Jung, seu Reich e o pessoal da turminha vai ajudando a arrumar. 
           A gente, e é claro, estou me botando no topo da lista, tem o péssimo hábito de bancar o candidato a santo, a Madre Tereza e toda essa galera, e alugar a vida da gente pros outros. O resultado é o mesmo de quem aluga uma casa: na maioria das vezes recebe de volta os destroços, o que restou dela, cheio de furos nas paredes , quando não crateras. Recebe uma amostra putrefata da belezinha que entregou na mão do inquilino, toda pintadinha de dourado e cor-de-rosa. E não aprende. Passa adiante, aluga pra outro inquilino, que chega sorrindo e prometendo cuidar como se fosse sua própria. Lógico, porque ele não tem uma. Se tivesse, não alugava a sua. E , of course, my darling, a história vai se repetir. Não duvide. 
           Você pegou o que era todinho seu, arrumou todos os cômodos e entregou na mão de um filho sabe-se lá de quem, fez até um contratinho e às vezes nem isso porque entra no tal acordo de cavalheiros, que nem sempre são lá tão cavalheiros assim e fica esperando o quê? A história se repete na maioria das vezes. 
          Peraí! Não vai deduzindo que estou naquela de melhor ir prum mosteiro budista ou virar ermitão porque a humanidade está podre. Estou sugerindo que a gente tem que comprar a própria vida e se tornar proprietária de si mesmo. Não dar a ninguém o direito de furar nossas paredes, escavar o chão da sala, esculhambar o piso do quarto e por aí vai. Ser você mesmo a dona da única coisa que é sua: a sua vida. Se a gente alugou a vida e permitiu desmandos, se a gente deixou que as pessoas nos “encaixassem” no que sobrou da agenda delas, a cagada é nossa. E sabe como é, sujou tem que limpar.
Troque a placa de “Aluga-se” por uma de “ Proprietária” e “Não há vagas para cavalheiros disfarçados”. Troque o aluguel e não permita que te aluguem. O tempo mais precioso é o seu e é agora. Se suas vidas continuam por alugar, queridos, lamento, mas vou ter que fazer coro com a Dido e dizer que você tem o que merece e que nada é verdadeiramente seu. Principalmente você. 
          Aqui parei. Eu agora vou às compras.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 03/04/2006
Código do texto: T133060

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai