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EU NÃO RESPONDO

 

Volta e meia eu teço loas à língua portuguesa, no que concerne ao seu vocabulário. Como há expressões bonitas! Esta que eu catei no Aurelião é um belo exemplo: Contradita – 1. Jur. Alegação forense dum pleiteante contra outro. 2. Contradição. Sei, sei, caro leitor; todos sabemos seu significado, fato que não invalida a sua aplicação. Uma das essências da democracia é a aceitação do contraditório. É o porfiar das idéias. É o altercar de posições. As vias do contraditório podem levar ao senso comum ou à lugar nenhum. Em vista disso, lanço a seguinte expressão: “Como é linda a ignorância!” Pronto, está feito o contraditório. Como pode haver exaltação para a ignorância? Bueno, vamos ver se eu destrincho este imbróglio.
Inicialmente, a ignorância ora escrita refere-se apenas, e tão somente, aos fatos pontuais, e não no seu pleno abranger. Exemplifico: eu não entendo absolutamente nada sobre pneus de trator. Portanto, em se tratando de pneus de trator, sou um completo ignorante. Completo seria um exagero, pois todos sabemos o que seja um trator, um pneu e sua utilidade. Refiro-me às características, modelos, construção, etc. Nessa extensão, todos ignoramos algum, ou muitos, temas. Portanto, somos todos ignorantes pontuais. Esse certamente é um dos motivos que enriquecem as pessoas que lêem de tudo. São capazes de darem “pitadas” em vários assuntos. Mas, quando não se tem conhecimentos mais detalhados, em qualquer área, a ignorância (pontual) lança-nos a sua  sombra. Assim como na curra inevitável o melhor é relaxar, em assuntos que ignoramos é melhor nos sentirmos felizes por não entendê-los. Obviamente, até que possamos dar “pitadas” ou adentrá-los.
Março/2006. Ligo a TV e assisto o depoente de uma CPI respondendo as indagações com apenas um legal: “Eu não respondo.” Legal não no sentido de bonito, mas por estar amparado por lei. E é aqui que eu relaxo (e gozo). Como não sou jurista, senti-me currado moralmente diante da tela. Sendo um ignorante nas minúcias das leis das CPIs. e, para que todos os meus dois neurônios não se desgastem e pifem de vez, devo declarar que sou feliz. Ignorantemente feliz! Feliz por viver num país em que a lei permite a um suspeito  de ter recebido milhões de reais, depositados em bancos no exterior, advindos do pagamento de campanhas políticas e de procedência ignorada, responder, durante quatro horas: “Eu não respondo.” Não é uma maravilha a ignorância? Ou ainda, na escolha do representante de determinado partido a presidente da república, o candidato número 1 ganha 7500 votos. O candidato número 2 ganha 4900 votos. Quem venceu a escolha? Se não fôssemos felizes ignorantes a resposta evidente seria: o número 1, não é mesmo? Errado. Quem venceu foi o número 2. É ou não é linda a ignorância? E não adianta me perguntarem por fax, e.mail, carta ou telefone como isso pode ser. EU NÃO RESPONDO!

Cláudio Pinto de Sá
Enviado por Cláudio Pinto de Sá em 03/04/2006
Código do texto: T133224
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Sobre o autor
Cláudio Pinto de Sá
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 69 anos
163 textos (23331 leituras)
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Cláudio Pinto de Sá