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ALUNOS QUE RECLAMAM. RECLAMAM DE QUÊ...?

    Certo dia, pela manhã, encontrava-me no Colégio Cenecista de Paripe, sentado no gabinete do diretor, que me convidara para oferecer algumas aulas de História Econômica e Administrativa do Brasil. O diretor e professor Admilton, era uma pessoa bem homorada, gorda, rosto rosado, careca, carismático, de boa fala, sempre tinha uma piada engraçada e interessante para nos contar e uma palavra amiga para todos aqueles que lhe procuravam com algum problema.
   Em dado momento, adentraram três alunos na sala do diretor e disseram em côro:
   - Bom dia!
   Prontamente retribuímos, em côro, a saudação:
   - Boa dia!
   E o porofessor Ademilton perguntou-lhes:
   - Em que lhes posso ser útil?
   Um dos alunos, que usava óculos e bigode, sorridente, bastante gordo para sua idade, aparentando ser mais velho dos três, disse-lhe:
  - Professor, nós alunos do terceiro ano da turma "A", viemos a lhe fazer uma queixa do professor de filosofia. O professor Conrado dá notas a alunos que não freqüentam as aulas dele. Pedimos-lhes para o senhor tomar as devidas providências.
   O professor Ademilton, fitando-os com olhar firme, os ouviu pacientemente, com atenção e respeito as observações dos alunos e disse-lhes:
   - Vocês têm dificuldades de aprender ou gostam de filosofia?
   - Adoramos a matéria...
   E o aluno que aparentava menos idade, de físico franzino e vasta cabeleira preta, completando a fala dos outros, disse-lhe:
   - O professor Conrado ensina bem. Muito bem... Muito bem!... As aulas dele são interessantes. Ele, em suas aulas sempre nos chama atenção, dando um dica, para aprendermos filosofia com facilidade. Segundo o professor Conrado: o primeiro passo para aprendermos filosofia é nos disciplinarmos, a fim de disciplinarmos os nossos pensamentos. Este é um dos segredos para raciocinarmos com lógica,com clareza e agirmos corretamente,compreendendo o verdadeiro sentido da filosofia, como ciência de todas as coisas pelas suas últimas causas e suas primeiras razões.
   O diretor, com semblante de alegria, deixando transparecer que achou interessante a explanação dos garotos, respondeu-lhes:
   - Não se preocupem, meus jovens, assim que houver oportunidade, eu vou conversar com o professor Conrado.
   O aluno de menor estatura, apresentando mais novo dos três, de olhos pretos graúdos, bastante robusto para a idade dele, disse-lhe:
   - Obrigado professor pela atenção que o senhor nos deu. Desculpe-nos haver interrompido a conversa do senhor com o professor. Agora, pedimos-lhe licença para irmos para a sala de aula.
   O diretor respondeu com ar de riso:
   - Não há de quê... Estamos sempre às suas ordens...
   Passado alguns minutos em que os alunos se retiraram da sala da diretoria, o professor Ademilton me pediu:
   - Professor se for possível, faça-me à gentileza de ir até a secretaria e ne trazer o "Diário de Classe" da disciplina filosofia.
   Fui até a secretaria, apanhei o "Diário de Classe" e entreguei ao diretor.
   O professor Ademilton abriu calmamente o "Diário de Classe" e começou a folhear até a última página de número 42, que era o número de classe do último aluno. Com ar de brincadeira, levantou a cabeça olhando para mim dizendo:
   - Temos 42 alunos, nessa classe. É uma boa turma. Eu vou ser mais um aluno dessa turma, meu número será 43. É um bom número. Você não acha?
   - Eu acho, embora não entenda muito bem de numerologia. Agora resta-nos aguardarmos os resultados positivos ou negativos. Eu gosto de ver para crer. Eu sou igual a São Tomé.
   E não é quê o diretor com espìrito de humor, colocou o seu próprio nome no "Diário de Classe"! E disse-me:
   - Agora, sou mais um novo aluno. Aluno de número 43. Tenho a esperança de ter boas notas...
   - É, professor Ademilton, acredito que o senhor terá às melhores notas da classe, visto ser um aluno experiente que provalvelmente não freqüentará as aulas e terá um bom comportamento.
   Passaram-se quase dois meses, quando tive a necessidade de ir até a diretoria do colégio para entregar um ofício que o Conselho Estadual de Educação enviara para o diretor e na oportunidade o professor Ademilton, recebeu-me com bastante alegria dizendo-me:
   - Você está sumido! O que houve! Nunca mais apareceu! Acredito que você não esteja zangado comigo... Por quê?...
Prontamente respondi-lhe:
   - Quando chego aqui no colégio já é em cima da hora de começarem as aulas. No meu horário não há intervalo de folga, isto é, não há aula vaga. Nos meus dias de folga, aproveito para estudar, pois estou fazendo um curso de Pós-Graduação "Lato Sensu", na UFBA. Na verdade meu tempo está escasso...
   O professor Ademilton, sorrindo, assim se pronunciou:
   - Eu senti muito a falta de seus papos, rapaz. Não deixe de aparecer quando dispuser de algum tempo para batermos bons papos. Contarmos boas anedotas. Olha rapaz! Foi até bom você aparecer... Só assim, você me fez lembrar de procurar saber se já tenho notas. Estou ansioso para saber...
   - Nesse ínterim, chegara o funcionário Pedrinho e o diretor lhe pediu para trazer o "Diário de Classe" da disciplina Filosofia da turma "A".
   Quando o funcionário entregou o "Diário de Classe" ao professor Ademilton, este começou a folheá-lo e perguntou-me:
   - Você se lembra do meu número de classe?
   - Sim, número 43. O número de sua sorte...
   O professor abriu o "Diário de Classe" na página 43, e lá, para sua surpresa, tinha notas. Com ar bem humorado, mostrou-me a página 43, com suas formidáveis notas e disse-me:
   - Veja com seus próprios olhos como eu sou um bom aluno. Eu tenho seis, sete e oito. Cada unidade que se passa, eu melhoro. Minha aprendizagem está indo em progressão geométrica.
   - É meu doutor, você vai de vento em popa!
   O diretor fechou o "Diário de Classe". Pegou o interfone e falara para a secretária da escola procurando saber se o professor Conrado estava no colégio, caso esivesse, quando houvesse tempo disponível fizesse a bondade de comparecer até a diretoria. Pois o professor Ademilton precisava vê-lo.
   Passaram-se uns cinco minutos e dera-se o intervalo para o lanche, momento em que comparecera o professor de filosofia à diretoria.
   O professor Conrado era um jovem com a idade aproximadamente de seus 23 anos, de estatura mediana, tinha uma pele bem corada, cabelos aloirados cortados  bem baixinho, olhos castanhos claros, de voz grossa e gestos rápidos.
   O diretor dera-lhe boas vindas, pedira-lhe para sentar-se e indagara:
   - Professor como vão as suas turmas?
   O professor com voz calma e demonstrando paciência respondera-lhe:
   - Até o momento as turmas vão bem. Eu não tenho a fazer nenhuma observação às classes. No entanto, há três alunos que têm dificuldades de fazer interpretação de textos. Com esses três alunos procuro dar uma melhor atenção e orientação especial, a fim de que eles consigam ser capazes de romper as barreiras de suas dificuldades. Aos demais até o momento vão bem...
   Depois da explanação do professor, o diretor pegara o "Diário" da turma "A", abrira na página 43 e indagara:
   - Professor, qual o caso desse aluno que está reclamando que não freqüenta e tem notas?
   O professor Conrado, com espírito bastante humorado e descontraído, sorrindo, imediatamente, respondeu-lhe:
   - Professor, meu caro amigo carismático, meu diretor e bom aluno. Se este aluno diz que não freqüenta e têm notas! Ele está reclamando de quê?!...
     
EVERALDO CERQUEIRA
Enviado por EVERALDO CERQUEIRA em 04/04/2006
Reeditado em 30/11/2009
Código do texto: T133626
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Sobre o autor
EVERALDO CERQUEIRA
Salvador - Bahia - Brasil
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EVERALDO CERQUEIRA