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O CELIBATÁRIO


Mais ou menos 16m2, uma escrivaninha, estantes com livros que forravam as paredes, uma cama de solteiro, um armário que guardava as suas poucas roupas e uma janela que mostrava: ao longe, uma paisagem colorida de verde e um pouquinho do azul do mar, que um prédio defronte ainda lhe permitia ver. Em baixo, uma pracinha bem cuidada mas pouco usufruída pelos transeuntes que sempre passavam apressados, ou para o trabalho, ou de volta para casa na ânsia de um repouso depois da refrega. Aquele lugar era a sua residência: Solteiro, aparentemente por opção, irremediavelmente um celibatário. Uma vida sem emoções; sem grandes prazeres e sem  grandes pesares. Um marasmo a que ele já estava acostumado, opcionalmente conquistado e do qual, por coisa alguma, abriria mão.
A janela do seu quarto era uma das suas poucas diversões. Olhar para baixo e ver os ombros dos transeuntes carregados de fardos, ou para longe e ver a tranqüilidade do verde e uma nesga da imensidão do mar.
Um dia, cansado já de um longo período de leitura, levantou-se para descansar os olhos já lacrimejantes e foi à janela olhar além das quatro paredes do seu quarto; depois de  ver a Papa-Ceia no infinito do céu ainda claro, o longínquo  do verde e a nesga do imenso mar, olhou para  a  pracinha  e  estranhou ,  àquela  hora,  um  homem trajando quase a rigor, sentado num banco e com um ramalhete de flores na mão. Um quadro tipicamente do século passado.
Horas se passaram e nada aconteceu além da postura desanimada do cavalheiro que deixou cair as flores e se retirou, cabisbaixo e triste.
Aquela cena tocou profundamente aquele solteirão solitário do quarto número quatro da rua X. Seu coração, desacostumado já às emoções, foi invadido, naquele momento, por uma forte sensação de angustia ante aquele fato irrelevante para qualquer outra pessoa que o presenciasse. Naquela noite ele fumou mais cigarros do que deveria e demorou mais para conciliar o sono. Parecia profundamente penalizado com aquele desconhecido, obviamente apaixonado, que levava   flores para a  mulher que deveria povoar os seus sonhos “incontentados e ardentes.”
No dia seguinte  nada fizera, como era de costume, aquele sessentão aposentado, além de ler Balsac e ouvir Chopin na sua velha radiola  e pensar no cavalheiro que trouxera flores e que as largara, como ele próprio se sentira, abandonadas no chão da praça.
Chegada a hora do lusco-fusco, o velho sessentão já estava à janela, não para ver a Papa-Ceia, ou o verde longínquo , ou a nesga do mar, mas sim o logradouro, na esperança de ver o cavalheiro da noite anterior, talvez com outro ramalhete. E eis que ali  estava ele; as flores mal lhe cabiam nas mãos, o traje mais requintado; ansioso, ávido, contudo parecia esperançoso da sua conquista. Até o sessentão, naquele momento, ficara feliz.
As horas se passaram, as flores já estavam murchas e o cavalheiro as deixou cair como se não as tivesse e se foi cabisbaixo e triste.
O velho sessentão  nunca soube para onde, mas certamente pensou:  – Talvez para um quarto vazio sem prazeres e sem pesares.



Raymundo de Salles Brasil
Enviado por Raymundo de Salles Brasil em 04/04/2006
Código do texto: T133765
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Sobre o autor
Raymundo de Salles Brasil
Salvador - Bahia - Brasil, 83 anos
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Raymundo de Salles Brasil