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Sophya




E ela foi chegando. Entrou pelo meu portão sem ser convidada, passou pelas grades da minha casa e chegou diante de mim abanando o rabinho. Mal sabia latir ainda...
Domingo, dia de não se fazer nada, curtir a preguiça e descansar, só descansar. Foi assim  que planejei esse meu domingo e foi assim também que Sophya (nome dado a ela por mim nesse dia) me encontrou. Olhei pra ela, ela olhou pra mim e nossos olhares começaram a dizer tudo que nossas almas estavam sentindo. Espera, eu nem sei se cachorro tem alma, mas se não tem, Sophya parecia muito bem entender da minha e foi logo ao ponto exato. Tocou bem fundo em mim com aquele olhar pidão de quem não tem pra onde ir nem onde ficar.
Estava morrendo de fome a bichinha, já fui logo lhe dando um pouco da ração da Luna, minha cachorra, e água. A “garota” parecia que nunca tinha visto comida e água e após fartar-se, pronto, foi só amor e carinho como que querendo agradecer com amor o amor que estava recebendo.
Em casa, iniciou-se a guerra do século. "Mais um cachorro? Não!" Todos foram taxativos e eu então perdi de cinco a um, bem, seis se contarmos a Luna que também, ciumenta como é, odiou Sophya logo de cara.
"Mas - explico logo antes que seja eu a próxima desabrigada - a pobre criatura é da vizinha que deve ter saído e deixado a bichinha pra fora, só estou esperando que volte”. Não vou entrar no mérito do “achismo”, talvez não seja necessário explicitar em palavras o que penso de pessoas que pegam animais e não cuidam, pior ainda, os deixam na rua passando fome e sede. Fato é que a vizinha não chegava. Conversei com Sophya explicando-lhe que a casa dela não era a minha e que deveria voltar pro seu lugar. Sophya não gostou da idéia. Foi o trabalho de levar-lhe por três vezes e enfiar-lhe pra dentro da outra casa e chegar na minha com Sophya grudada em mim. Cansei, desisti, melhor mesmo era esperar a dita vizinha reaparecer. E assim foi o meu dia, o meu domingo. Minha preguiça precisou esperar pois Sophya só sabia morder e assim, tudo que via queria morder. Sophya corria pra lá e eu atrás,  Sophya vinha pra cá e eu atrás. Cheguei mesmo a mostrar-lhe o portão, mas de nada adiantou, Sophya queria mesmo ficar. E ficou, foi ficando e nada da vizinha voltar...
Olhei novamente para os olhinhos que me fitavam como querendo me falar algo, talvez quisesse agradecer a comida que roubei da Luna,  a água que lhe dei, mas acho mesmo que aqueles olhos me diziam de outra coisa, me falavam de amor, de carinho e assim Sophya falou diretamente com minha alma, mostrou-me um pouco mais da face humana, pessoas que pouco se importam com os outros, gente ou bicho, não querem saber. Isso me revoltou e muito, fiquei pensando, ensaiando o que iria dizer pra vizinha assim que a visse chegar. Ameaçá-la, dizer que iria denunciá-la à Associação Protetora dos Animais... Não sei, de início até pensei sim, mas depois... Depois pude ver que de nada adiantaria processá-la,   já que a pobreza humana consegue ir além até mesmo do tudo que o  dinheiro pode comprar.
Novamente, aqui estou eu frente ao caráter humano que muito fica a dever para meu ideal de humanidade. Se fazem isso aos animais, em relação aos seus semelhantes não são  diferentes. Se não se matam com armas, fisicamente, estão matando com gestos e palavras. É, ainda há muito que aprender com meus irmãos de raça, mas mais ainda, muito a mudar...
Vou ficando aqui com Sophya, esperando sua dona chegar, aquela vizinha, aquela mesmo...


02/04/2006
Aisha
Enviado por Aisha em 05/04/2006
Código do texto: T134423
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Sobre a autora
Aisha
Jundiaí - São Paulo - Brasil, 50 anos
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Aisha