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A Carona

Tião do Virgílio, homem de meia-idade, após o serviço, seguia para casa, tendo às costas umas sobras de tábuas, que ganhara de seu patrão. Havia desmanchado os andaimes e aqueles restolhos, mesmo com restos secos de cimento, dariam um bom fogo em seu fogão a lenha. Já se sentia cansado, com o suor a escorrer-lhe pelo rosto e os ombros ardendo, embora os houvesse protegido com uma rodilha de pano. É que aquela íngreme ladeira de São João Del Rei não era fácil de ser vencida, ainda mais que, com seu claudicante andar, as amarras das tábuas foram se desfazendo, ficando mais difíceis de serem carregadas.
— Vamos, Tião - pensava ele com seus botões. - É só mais um quarteirão de subida, depois quebra à direita e já sua casa se avista!
            Será que seu pensamento ganhara som e extrapolara  os limites de suas ideias? Uma camionete chevrolet 54 pára ao lado e o motorista, conhecido de vista, chamado  Ivo, oferece-lhe  carona. Mas, agora que ele já estava chegando, nem compensava o trabalho de tomar aquela condução. Muito agradeceu e continuou o seu caminho.
Ivo não se deu por vencido. Insistiu com Tião, penalizado, ao ver que o suor lhe empapara a camisa  e os passos já denunciavam todo o cansaço.
— Venha cá, companheiro. Deixo você na porta de sua casa. Este morro mata qualquer um!
Aquilo fora dito com tanta convicção que Tião resolveu aceitar a ajuda. Jogou as tábuas na carroceria e se acomodou na boleia do caminhão. Seus ombros, aliviados de tanto peso, até agradeceram.
— Então vamos lá - disse Ivo.
Desta vez o caminhão é que blefou. Morreu ali mesmo.
 — Não se preocupe, ele pega de ré, no tranco - persuadia o conhecido, vendo que Tião fazia menção de descer.
As tentativas foram feitas, uma a uma, e todas  em vão. Para o desespero de Tião, de ré em ré, o caminhão desceu completamente a ladeira! O que Tião viu foi aquela árdua subida empreendida, que ele teria que refazer, chorando ou praguejando...


fernanda araujo
Enviado por fernanda araujo em 06/04/2006
Reeditado em 26/05/2012
Código do texto: T134649
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
fernanda araujo
Divinópolis - Minas Gerais - Brasil
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