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       A cigarrinha 
       do meu flamboyant



   Nesse tempo, eu morava em uma confortável casa, com jardim e quintal. E no flamboyant do meu jardim hospedava-se uma cigarrinha cantadeira. Dava meio-dia, e ela danava-se a cantarolar.
    Por mais que eu me esforçasse, nunca conseguia vê-la.  Ela fazia  seu showzinho sem ligar pra ninguém. Nem para este nostálgico cronista que, desde criança, admira as cigarras, não se aporrinhando, nem um pouco, com seu canto estridente, linear, e prolongado.
     Li - acho que em uma crônica do Mestre Affonso Romano de Sant´Anna - que somente a cigarra macho canta. E canta, lembra o excelente cronista, para atrair a cigarra fêmea.
     A cigarrinha do meu flamboyant podia, quem sabe, ter um bom motivo para não aparecer, enquanto chilreava...  De súbito, u´a cigarra fêmea estaria, vaporosa e oferecida, no galho vizinho ao seu...
      As primeiras cigarras que vi na vida estavam agarradas  num galho de um cajueiro. Ah, aquele velho pé de cajú, testemunha de dias maravilhosos de minha infância, curtidos - "pés descalços e braços nus" - na cidade de Iguatu, no alto sertão do Ceará.  
     Antes,  eu só tinha notícias delas quando alguém do Grupo Escolar recitava poemas do Olegário Mariano, o poeta que amava as cigarrinhas: 
         - "Cigarra cor de mel! Extraordinária!/ Cigarra, quem me dera/ Que eu fosse um velho cedro adusto e bronco,/ E tu, nessa alegria tumultuária,/ Viesse pousar sobre o meu tronco/ Ainda tonta do sol da primavera."
    Mudei-me para a capital. Estava certo de que, na cidade grande, não encontraria cigarras, e me enganei. Encontrei-as, e trilando no  jardim de minha casa! No jardim,  que aqui recordo com saudade... 
    Como cultivar um jardim, agora, que moro no quinto andar de um edifício? Satisfaço-me com as plantas ornamentais que Ivone cuida com inexcedível prazer e religiosa devoção.
     No último verão que passei em minha casa, deu-se o seguinte: de repente, minha cigarrinha parou de cantar... Dois, três meio-dias, e nada. 
     Desesperado, saí à sua procura. Até no flamboyant eu subi, exercício que não fazia há muitos anos. No dia seguinte, tive que tomar um Dorflex, para recuperar a forma! 
     Depois de exaustiva busca, encontrei-a morta, em um canto do jardim. Flores murchas caídas do meu flamboyant e de minha buganvília cobriam-lhe o frágil corpo, enquanto formiguinhas famintas, num vaivém nervoso, roíam-lhe as asinhas ressequidas...
    Disseram-me que as cigarras morrem cantando; "arrebentam o peito de tanto chilrear." 
    Eu ouvira, sim, o último canto da cigarrinha moleca do meu flamboyant. Mas não sabia que aquele seria o  seu canto de despedida...  
    Oh! Também gostaria de morrer como as cigarrinhas, ou seja, cantando, cantando, cantando...
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 06/04/2006
Reeditado em 13/05/2013
Código do texto: T134895
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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