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Só pra voltar*

É... Não sei o que dizer, também nem o que fazer. Ah, lhe posso contar uma história? De mágico, que é pra gente mudar de assunto com fantasia.

Há uns tempos eu descobri que meu irmão é alto do jeito que é por causa do vovô... O vovô, quando meu irmão era ainda muito pequeno e não gostava de se alimentar, começou a chamá-lo de ‘grandão’, que era pra ver se ele crescia, à força, à magia de avô... Se você visse o tamanho do meu irmão hoje... Enorme, pra lá de 1,80...

Vê? Eu não sei mais lhe animar... Além, eu também nem sou boa contadora de histórias.

Pois é... Mas, da época desse descobrimento, o que lembro é o começo do achar que o vovô tinha falhado na mágica comigo... Ele sempre me chamava de ‘bonita’, pra lá e pra cá... Não deu muito certo, né? A força da magia do vovô já tinha sido gasta com meu irmão e com minha irmã, que também devia ser chamada de ‘bonita’ porque ficou... É o preço que se paga por ser a caçula: receber as magias do avô já pifadas.

Inclusive, eu descobri outra coisa essa semana, coisa das mais sérias, uma coisa que eu até já sabia, mas não era bem querida do meu saber... É... Faltou uma coisinha de nada pra eu conseguir o que eu queria, não foi? Foi, eu sei, eu sei das coisas. É difícil eu me enganar, me engano só porque quero... Fiquei meio triste quando desconfiei, mas tem tempo certo pras coisas, mesmo que tempo nem chegue...

Vixe, que hoje eu estou com as saudades... Até o vácuo no coração eu estou sentindo todo... De quê? Ora de quê? Eu sou toda saudosa, eu sou toda nostálgica. Tenho saudades até de hoje: dia chuvoso, dia em que eu estou assim: meio apaixonada, meio desapaixonada, meio sem saber, com uma saudade futura do vovô... Mas eu tenho saudade de tudo, do que eu vivi, do que eu não tive, nem tenho, nem vou ter ou vou deixar de ter, vou deixar de ser...

Por exemplo, do que vivi: as semanas completas cheias de novidades nas tardes da faculdade, quando faltávamos aula pra fabricar planos mirabolantes jamais realizáveis... Ai, que tempo; ai que alegria; ai que eu daqueles tempos.

Do que é que eu tenho saudade e que não tive, não tenho, nem vou ter? Ora, eu não preciso dizer... Você bem sabe, está nos meus olhos... Não? Claro que está... Você precisa de óculos para a alma... Tem tudo aqui nos meus olhos: olha.

Por falar em olhos, a culpa é dos seus. Sabia que se eu fosse poeta ou escritora ou música que se prezasse, eu diria da mais bonita maneira que seus olhos foram feitos pra se armar rede neles e ir. E nunca mais sair...

Nem que se queira se consegue mesmo...

Bom... Ao mau gosto do meu querer, mas para o bem do meu dizer demais, eu vou indo. Depois eu volto. Essa mania de voltar me persegue.

* Crônica publicada no site Crônica do Dia - www.patio.com.br/cronica.

http://www.patio.com.br/cronica/2006/abril/voltar_cris.htm
Cristina Carneiro
Enviado por Cristina Carneiro em 07/04/2006
Código do texto: T135154
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Sobre a autora
Cristina Carneiro
Fortaleza - Ceará - Brasil, 34 anos
56 textos (2431 leituras)
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Cristina Carneiro