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ferrovias - entre a poesia e a realidade.

Essa crônica nasce de um comentário feito por Tarcísio Zacarias dos Santos ao duplix que escrevemos eu e Regina Bertocelli, cujo nome composto é "Amor Passageiro/Verão" e da aceitação de um convite para ler a crônica "Sobre os trens" escrita por Tarcísio.

Gostei da sua crônica, pela realidade crítica, conteúdo e forma. As fagulhas das Marias-Fumaça às vezes salpicam alguma luz e calor na minha poesia, no entanto ainda não tratei da ferrovia.

Isso está em mim, como poesia, por ter nascido no interior de São Paulo, em uma época em que o trem era símbolo não de decadência, mas de prosperidade, e pela própria infância em Andradina. Barulho de trem, apitos, resfolegar da locomotiva negra e oleada, bigodes de jatos de vapor sobre o limpa-trilhos, burburinho na Estação da Noroeste do Brasil, e viagens lá pelos confins do meu Estado. Fagulhas vermelhas riscando a noite, fumaça pelas narinas... dragão menino.

Depois, pátio de manobras da Araraquarense visto de cima, pela janela do hotel. Madrugadinha em Araraquara, cheiro de laranja perfumando tudo, até as mocinhas da cidade. Manobras de trem, sempre no ribombar do seu estardalhaço.

Um dia, inverno severo, a caminho de São José do Rio Preto, e apesar do vento gelado, sentado no vestíbulo aberto que dá acesso aos vagões. Era irresistível. Era um campo imenso, alto e plano, penumbra, o Sol nascia redondo e vermelho, e a Lua descia, branca, redonda e cheia. Era um sol namorado indo ao encontro da Lua que o esperava emocionada.

Do tempo da Universidade, lembranças da visão romântica do trenzinho que passava do outro lado do Rio Pinheiros, visto através do esquadro de uma janela no prédio do CRUSP - Conjunto Residencial da USP, final da década de 60.

Esse trem vem saindo com a poesia que ele contém, mas também vai sair com  realidade política, social e econômica, queimando em sua caldeira, em coração-não-dormente, as matas brasileiras, e vai sair com a contundente crítica a um país, povo e governo, que permitem que milhares de quilômetros de linhas férreas, desmatamento, serviços de engenharia, estações e pontes, cascalho, dormentes, trilhos, cancelas, carros e locomotivas se degradem e se dissipem, como vem acontecendo e aconteceu.

Se De Gaulle (abelhudo, narigudo e prepotente) já disse que o nosso país não é sério, faltou dizer, também acertadamente, que não tem memória.
Na década de 80, conheci em Londres uma senhora inglesa que conhecia muitas coisas do Brasil, sem ter nunca estado aqui. Era descendente de uma família de ingleses que esteve no Brasil implantando ferrovias. Eram membros de uma "Sociedade" ou "Instituição" formada por pessoas descendentes ou que, direta ou indiretamente, implantaram as ferrovias no mundo inteiro. História, publicações, palestras, debates eram suas atividades, e por certo já registraram e analisaram a História recente, e os processos de privatização e degradação de nossas ferrovias.
A Inglaterra deveu muito de sua hegemonia, imperialista que foi (e ainda é?) no Séc. XIX e início do Séc. XX, à instalação das ferrovias pelo mundo a fora. Na História crítica, a Nova História, essa vertente acadêmica da própria filosofia e pedagogia da História. Metodologia de Lucien Febvre y Marc Bloch, em países cultos, capitalistas.

Pois bem, era a década de 80 e fiz uma viagem de Londres a Manchester, num daqueles trens ingleses famosos por seus horários de horas e minutos e pela sua pontualidade - cômodos, velozes, pontuais, limpos, carros largos, assentos confortáveis, trens silenciosos, e serviços de alimentação. Só não reparei se nessa composição havia os carros-dormitório nem conversei para saber se os transformariam em motéis móveis ...
Naqueles dias, os TGV´s na França ( train a grande vitesse) e no Japão os trens-bala, indicavam a direção para os rumos do meio de transporte confortável, econômico e eficiente.

A propósito na mesma época, uma frota inglesa cruza o Atlântico de norte a sul, entre a África e a América do Sul, navega em frente a toda a Argentina, passa sob as barbas do Galtieri, que reservava alguns Exocets franceses para uma provável batalha que não acreditava viesse a acontecer. Talvez pensasse em blefe ou na fleugma dos ingleses. E as Malvinas caíram fragorosamente em poucos dias sob a férrea mão inglesa, ou contra-mão se assim quiserem. Tudo tão rápido que nem mesmo deu para se constituir no estratégico inimigo externo que desse consistência ao país e agregasse os passionais argentinos em torno do seu novo chefe.

Agora de tango a rap; já lá se foram as nossas ferrovias. Colocamos meras 28 toneladas sobre um caminhão que sai do Rio Grande do Sul com destino ao Maranhão, distância de quase 1/8 da circunferência da Terra, ou cometemos a maluquice de mandar de São Paulo para o norte, poucas toneladas de perecíveis para passarem dias, caminhão atolado na Belém-Brasília ou nos seus ramais. Custo Brasil, custo dos combustíveis, custo de manutenção do caminhão, custo das rodovias, e o custo do tempo de transporte a impactarem a economia. Cus-tos, cus-tos, cus-tos....

E rap-rap, pichamos e fazemos o nosso protesto, não gostamos de trens confortáveis, no trem e na vida, preferimos o rap ao Villa Lobos, ao Chico Buarque, Caymmi ou Pixinguinha e ao Carlos Gomes, e enquanto isso fazemos terra ( assim também se fala que é encoxar) na bundinha das meninas. E tome rap e hip-hop, que elevamos a nível de cultura, e nesse terra, sem trem, que cada um salve o seu, nesse trenzinho que cruza o país das bravatas, das gravatas e da alternativa cultura da anti-cultura.

Se nossas Malvinas se chamarem Manaus, nada maus, nada maus... vão expulsar prá capital as indiazinhas ... e haverá mais indiazinhas ... na Central...



Marco Bastos
Enviado por Marco Bastos em 08/04/2006
Reeditado em 24/03/2009
Código do texto: T135900
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Marco Bastos
Salvador - Bahia - Brasil, 72 anos
1717 textos (87476 leituras)
2 áudios (495 audições)
1 e-livros (791 leituras)
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