Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

SÓ TEM CAFAJESTE PORQUE TEM MULHER TONTA

O que eu vou dizer é mais vellho que andar pra frente, mais antigo que rótulo de Maizena e caixa de Hipoglós: o problema das moças é que elas sempre acham que o bofe vai mudar. Melhor dizendo: que elas farão o milagre da transformação do grande cafajeste no homem que a mamãe sonhou pra genro. Sorry, ladies. Bad news for you. Não mudou e nem vai mudar, a menos que tenha alguma razão muito própria e individual para isso.
Coisa bem antiguinha, e que rendeu até matéria numa dessas revistas femininas muito conhecidas, além de um livro surgido de discussão análoga em episódios do Sex and the City, mostra bem claramente como nós, as grandes transformadoras de homens, gostamos de uma boa ilusão. Depois de uma tórrida noite de amor (pra você) e de sexo incrivelmente selvagem (para o bofe), nem um telefonema de “ tudo bem?” na manhã seguinte, e a grande amestradora de homens já tem um rosário de explicações para o sumiço: o pobre bofe foi vítima de seqüestro-relâmpago, a vovó que ele ama de paixão foi internada com um enfarto fulminante (e a megera tem coração muito melhor que o seu), ele está assustado com a onda avassaladora de amor jamais experimentado que se abateu sobre ele...e por aí vai. Não, filhinha. Ele não teve nenhum destes problemas terríveis, não perdeu seu número de telefone, não está em meio a nenhuma crise existencial. Ele apenas não tem absolutamente nada pra falar com você. Vocês já conversaram o suficiente durante a noite, pegou, linda?
E numa dessas, entra a Alice. É. A Alice, aquela minha amiga que vivia no País das Maravilhas e que a ficha não caía. Lembra? EU??? FRÍÍÍÍGIDA!!! ...lembrou, né? Pois a Alice tinha também uma amiguinha. Meiga, meiga. A Cândida (fica esse nome porque combina com a inocência da moçoila) era uma moça e tanto: finérrima, gosto apurado, inteligente, culta e...tonta! A Inocência, digo, Cândida, arrumou um bofe lindíssimo, último tipo, lindo, corpinho sarado, divertido, bem humorado, que conheceu aí pela night. Aliás, em horas tardias das nights.  Verdade que desde o começo só saíam bem tarde, até porque Cândida era uma moça muito ocupada, dessas que trabalham com dedicação de cão de guarda. E aí tem que dar uma geral na beca, ajeitar a maquiagem, etc e saíam lá pelas tantas. Pela mesma razão, o moço só saía tarde e, igualmente dedicado ao trabalho, tinha sempre aqueles dias em que não dava, ia precisar trabalhar até tarde, neste final de semana tem viagem de negócios e por aí vai.
Num dia como estes, o telefonema que derrubou as duas torres do World Trade Center em cima da Cândida:
- Olha, sabe...você é muito linda, tão gostosa, muito perfeita. Eu não sei. Acho que você merece alguém melhor do que eu...
      E aí, meninas? Reconhecem o discurso? Já viram coisa mais original?
- Mas, amor, eu não estou entendendo... a gente se dá tão bem, é tudo tão ...tão...único!
       Outra bem original essa. Sempre é único. Ai, os apaixonados...
- Eu sei. E é isso que me assusta…Não estou preparado. Tudo aconteceu tão rápido e está indo longe e depressa demais. Eu preciso estar mais seguro pra continuar. E você...é tão brilhante, tão culta...me assusta...
       Muitos dias e muitas caixas de antidepressivos e de lenço de papel mais tarde, e não é que a Cândida encontra o bofe com uma garotinha, quase criança, numa pizzaria? “Teria ele se tornado um assaltante de berços ou é a filha dele?” Nada disso. O pior estava por vir, o golpe de misericórdia:
- Bennnnnnziinhoooooo, quero um pouco menas pimenta...me dói o estomo, mozinhooo...
 Bem, meninas, não é preciso dizer que a minha amiga Alice, nessa altura da narrativa, e que a esta altura da vida tinha um tantinho mais de miolo, estava com ganas de matar a tapas. Não o moço. A Cândida. Como ela pode ser tão tapada? E ele, que belo cafajeste...
Elementar, minha cara Alice.  A explicação é aquela de sempre: ele estava ali, era o que era. ELA é que não quis ver, quis se achar a grande transformadora de homens. Aliás, vale lembrar que este tipo de reformadora da humanidade tem uma espécie de radar superpotente que detecta qualquer ínfimo indício de canalhice mesmo no meio da Reunião Mundial dos Bons Moços. E não satisfeita, tem um imã poderosíssimo pra este tipo de safado. E vice-versa, claro.
Quanto ao bofe, moçada, também é elementar. É só seguir a lei da oferta e procura, que todo economista gosta: só tem cafajeste sobrando porque tem tonta em abundância. E doida pra sofrer.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 28/04/2005
Código do texto: T13610

Copyright © 2005. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154037 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 07:29)
Débora Denadai

Site do Escritor