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Quer um “choquito”?

A casa do Vito Doido, nosso vizinho, ficava no final do Beco. Nós falávamos casa, mas era tudo resumido num só  cômodo: o quarto de dormir. A coberta servia de cozinha. Não havia  banheiro. A bacia fazia sua vez e o pinico resolvia outros problemas que depois de feito o serviço era jogado tudo na rua. Se algum infeliz por ali estivesse,  ganhava um banho de xixi e outras coisas mais.
Fora feito uma cerca de tela de arame  e a boa natureza cobriu-a por completo com a erva de São Caetano. Era uma tentação para nós crianças  aquela cerca  cheia de “boizinho”, nome dado ao fruto  da planta. Se estivesse  maduro com aquelas sementinhas vermelhas, logo aparecia um  candidato para saboreá-lo. E verde, nós brincávamos de bichinho, nele colocando alguns pauzinhos fazendo, às vezes,  de perninhas.
O portão de entrada também ficara todo camuflado pela plantinha. Só que havia um perigo. O maluco do vizinho colocara uma fiação na cerca  por onde passava a eletricidade. Quem encostasse no portão  era choque na certa. E ele ficava livre de qualquer intruso.
Para as crianças surtiu efeito contrário. A curiosidade aguçada e a atração pelo proibido  despertavam na meninada aquele gostinho do perigo. Á tardinha, quando era chegada a hora das brincadeiras na rua, sempre havia algum que dizia:
- Vamos colocar a mão no portão?
Rapidinho formava-se uma fila. O mais corajoso era escolhido para ficar na frente. Íamos andando devagar feito a Pituchinha das histórias infantis: pé cá, pe lá...
Era uma cena que merecia ser filmada. Aquelas crianças miúdas, de mãos dadas, com uma forte expressão facial , ora de medo, ora  sorrindo e cada vez mais se aproximando do  portão.
De repente, o primeiro da fila colocava a mão no portão e  zummmm... o choque elétrico perpassava  em cada um e era aquela correria! Ríamos a valer. E sempre repetíamos a dose, duas, três  e até mais vezes.
Acontecia que, algum dia, o Vito  esquecia-se de colocar a eletricidade no portão e a turma  partia chué para outras brincadeiras.



fernanda araujo
Enviado por fernanda araujo em 09/04/2006
Código do texto: T136432
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Sobre a autora
fernanda araujo
Divinópolis - Minas Gerais - Brasil
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