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                     Viva o cooperativismo

                             Rosa Pena 

Elenice (sem h) não se encontrava nem no próprio nome. Sempre que dava seus dados para preencher uma ficha, era obrigada a dizer Elenice sem H.
Casou-se cedo com Valdir, dono da padaria de seu bairro. Conheceram-se quando ela ia cedinho buscar o pão nosso de cada dia. Seus pais eram rígidos em demasia e só permitiam essa única saída dela desacompanhada. Padaria com hora marcada pelo papai, no restante, apenas o lar. Já havia feito o primário:

— Sair pra estudar mais o quê, se o grande negócio é casar? Apareceu grávida com quinze anos e ficou claríssimo para todos do bairro que a fornicação foi entre uma fornada e outra. Casou-se antes do nascimento do pãozinho que levou o nome de Eldir. O pai-padeiro quis que sua senhora fosse uma mulher-mãe, dedicação exclusiva ao rebento e ao fogão.


Elenice (sem h) cuidou de seu menino, viu-o virar baguete, bisnaga e quando Eldir tomou jeito de pão dormido, pronto pra ser rabanada, foi-se em busca de outros natais.
Elenice (sem h) estava só, absurdamente solitária, e nunca sentiu tanta falta do h na hora H do pegapracapá. Triste assistir ao aumento da barriga e da falência financeira do Valdir. Multas se acumulavam. IPTU, ICMS, vigilância sanitária, perda do alvará, ficar ao Deus dará, depois de trinta anos dedicados ao lar. Maldito capitalismo selvagem. Ficou muda com a situação e até seu companheiro fogão perdeu a voz em três bocas. Apenas uma se abria de forma baixinha, quase monossilábica, pra aquecer um peitinho astênico, comprado na promoção de algum varejão.

Elenice (sem h) nunca foi de atitudes intempestivas, mas no dia em que o fiscal bateu em sua casa, para entregar a notificação de que a padaria teria que fechar as portas, Valdir havia saído em busca de empréstimos, ela partiu para tentar solução. "Quem procura, acha". "É dando que se recebe". Mais vale um pássaro na mão que um franguinho ferrado no fogão.

Valdir chegou já de noitinha e encontrou Elenice (sem h?) deitada, com ar de meu bem, meu zen, meu mal e duas manchas roxas no pescoço. Antecipando-se a qualquer pergunta, falou:

— Tomei um tombo na escada e antes que eu me esqueça: a multa e a pena da vigilância sanitária já estão resolvidas. Conversei legal com o fiscal. Tudo legalizadíssimo.

Valdir suspirou aliviado e ainda ganhou de brinde uma vigorosa massagem da mulher, coisa que nunca havia recebido. No dia seguinte, totalmente relaxado, pediu a Elenice (tanto faz o h) duas coisas. Que tentasse resolver as outras dívidas, nunca havia percebido que a mulher levava tanto jeito pro negócio, e outra massagem daquelas. Virou-se para o lado, sonolento, sem antes, no entanto, dizer com um zelo jamais visto:
— Apenas toma cuidado com as escadas. Rolantes não oferecem quase perigo, as de pau muito duro podem oferecer alguns.

Depois de muitas subidas e descidas da Elenicezinha (cagou geral pro h) as contas foram quitadas e a padaria virou delicatessen. Ela, então, bem segura de si, resolveu abrir uma poupança, para dar mais verniz aos degraus de seu sobe e desce. Ele merece. Ele merece. Ele merece! Na hora de preencher a ficha no banco, finalmente não ouviu a pergunta de praxe sobre seu nome. O gerente estava com o olhar distraído num par de coxas, imaginando as diversas manchas roxas que mereciam estar lá.

— Subimos para o escritório? É só um lance de escada.

Ano que vem, se Deus quiser, Eleníssima (se o h já era mudo, agora morreu de vez) vai abrir um bistrô temático. Escadaria é o nome. Pequenos pratos feitos de massa de pão caseiro, recheados de lingüiças forasteiras.



LIVRO UI!
Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 09/04/2006
Reeditado em 05/12/2009
Código do texto: T136455
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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