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               Desabafando

        Vez em quando, sou, por alguns cruéis e irreverentes amigos, chamado de cafona.  
        Dizem eles que eu continuo ligadíssimo no passado; que não evolui. 
       E com indisfarçável ironia, garantem que eu só não uso gravatinha borboleta, chapéu gelô, e bengalinha de cabo de marfim, temendo uma impiedosa vaia.

        É uma acusação insuportável;
        uma injustiça;
        um horroroso equívoco.
        Eles não têm razão.

        Segundo essa gente, eu sou cafona ...
porque gosto de serestas;
porque adoro dançar bolero;
porque curto mulher de camisola de cetim azul;
porque meus lenços são de cambraia de linho;  
porque ando perfumado;
porque uso cueca samba-canção;
porque uso prendedor de gravata;
porque não troco o filé com fritas por estrogonofe.
          E ainda.  Porque leio e releio José de Alencar, Artur Azevedo, Machado de Assis, os Sermões de Vieira, a Bíblia Sagrada, e me divirto, à beça, com o impagável Pitigrilli, o magistral autor de "Não se come frango com as mãos".
         Porque escuto Silvio Caldas, Nelson Gonçalves, Francisco Petrônio, Alcides Gerardi, Carlos Galhardo, Vicente Celestino, Dick Farney, Dolores Duran, Linda e Dircinha Batista, Emilinha e Marlene, a divina Elizeth, Luiz Gonzaga, Dalva, e Orlando Silva, " o cantor das multidões".
           Porque adormeço escutando Francisco Canaro, Glenn Miller, Tommy Dorsey, Rey Conniff, Paul Mouriat, o sax de Fausto Papetti, a flauta do Benedito Lacerda, o piano do Bené Nunes, o cavaquinho do Waldir Azevedo, e o bandolim mavioso do Jacó.
          Porque gosto do Cantochão; e da missa em Latim. Porque admiro padre de batina; o frade de burel; e a freira de hábito.
          Porque vibro, quando Augusto Calheiros, em Prelúdio de Sonatas, diz que "a lua é um disco em que o Criador gravou uma canção,/ tocada pelos anjos num conjunto, numa grande orquestração."
           Porque, no banheiro, tento imitar o "caboclinho querido", cantando, de Orestes Barbosa, Chão de Estrelas   -  "A porta do barraco era sem trinco/ Mas a lua furando nosso zinco/ Salpicava de estrelas nosso chão. / Tu pisavas os astros distraída/ Sem saber que a ventura desta vida/ É a cabocla, o luar e o violão". (Assobiaram?)  
         Porque, em noites de plenilúnio, recordo Catulo da Paixão Cearense, recitando: - "Que ela venha à janela, semi-nua,/ para ver, nesta noite cor de prata,/ como o poeta se assemelha ao Cristo/ carregando uma cruz, em serenata."
            Porque repito, mil vezes, estes versos lindos de Castro Alves: - "Ó! Diz-me, diz-me, que ainda posso um dia/ De teus lábios beber o mel dos céus; /Que eu te direi, mulher dos meus amores:/ Amar-te ainda é melhor do que ser Deus."
           Porque aplaudo Casimiro de Abreu - "A brisa dizia à rosa: - "Dá, formosa,/ Dá-me, linda, o teu amor;/ Deixa eu dormir no teu seio/ Sem receio./ Sem receio, minha flor"!
          Só que eles não sabem que também sou fã do Drummond; do Manuel Bandeira; do Mário Quintana; do Vinícius; e da poesia inocente da Cora Coralina.
          Eles não sabem que leio Rubem Braga, Rachel de Queiroz, Artur da Távola, Fernando Sabino, Cecília Meireles,  Zuelnir Ventura,Lia Luft, Danusa Leão, meu amigo João Ubaldo, e outros cronistas de primeira água.
            Finalmente, eles não sabem que gosto do Tom Jobim; do Chico Buarque; da Elba Ramalho; do conterrâneo Fagner; do Zeca Pagodinho; do Martinho; da Maria Betânia; da Joana; da Marisa Monte; da Daniela; do Dominguinhos. Os pagodeiros? Abomino-os.
          Vejam: não sou tão cafona, como acham meus amigos, sujeitos crueis.  Sem piedade, eles insistem em me gozar... 
           Se ser assim é ser cafona, continuarei a ser como sou.  
           Os amigos maledicentes, que se danem...

 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 09/04/2006
Reeditado em 23/08/2013
Código do texto: T136528
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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