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O G R I T O

   
A História do Brasil, contada em alguns livros, firma gritos que estigmatizaram certos momentos. “O Grito do Ipiranga”, o famoso “Independência ou Morte”, que Pedro Américo imortalizou em óleo, é um clássico exemplo. A propósito: de 1822 até 2005 passaram-se 183 anos. Aos que já bolearam a perna na Estância do Infinito, a Morte serviu de porteira. E a tal de Independência, o que é mesmo isso? Fragmentada, talvez a entendamos. Mas, a plena, como será? Ou a vivenciamos e sou eu quem não a reconhece?
Em Sepé Tiarajú encontramos outro grito: “Esta terra tem dono”! Resta saber qual.  Tanto a terra quanto o dono. Há menos de duas décadas, fomentado pelas informações da imprensa, o povo (?) gritou: “Fora Collor”. Era a roubalheira que grassava, desgraçando o povo e a imagem brasileira perante o mundo. (Será, mesmo?). Alguns anos antes, o povo já gritara: “Diretas Já”. No carnaval de rua, quando uma Escola de Samba já está na concentração, pronta para iniciar o desfile, ouve-se o grito do chamado puxador de samba: “Alo meu povo da Portela, chegou a hora”. E os milhares de foliões se animam para realizar aquele proposto. É a força do grito a animá-los. No Rio Grande do Sul, por querencismo, mas vale para outros lugares, o grito do quero-quero tem uma mistura romântico/melancólica. Mas ele grita para defender seu ninho. É interessante ressaltar que o nosso primeiro ato, pós útero, é o grito. Gritamos e ganhamos colo.
E assim, passaríamos horas a preencher folhas e mais folhas de papel exemplificando os mais variados gritos. De um aspecto, contudo, não devemos deslembrar: após um grito, há uma ação. Se esta resolve ou não os motivos do grito, bueno, aí é como no jogo de poquer: “é pagar para ver”. Certo ou errado, em 7 de fevereiro de 1756, Joaquim José Viana só deu um tiro em Tiarajú, depois daquele grito dado. Calou o caudilho guarani. Calou mesmo?
Aí está, gritos e mais gritos! 322 anos de Brasil Colônia e Reino Unido; 67 anos de Império; 116 anos de República. 30% da população semi-analfabeta; 70% vivendo (?) na linha da pobreza. Ministros, senadores, deputados e outras autoridades envolvidas, ou sob suspeita, em escândalos. Sonegação e desfalques de toda a ordem são noticiados (quando o são) diariamente. Dinheiro brasileiro em paraísos (ou seriam infernos?) fiscais. É uma festa. A violência, e a conseqüente insegurança, já é uma instituição (lamentável). É... parece que depois de 505 anos, quedamos como bons cabritos. (diz o adágio: “Bom cabrito não berra”). Onde está a imprensa do Fora Collor, das Diretas Já? Onde está o novo Sepé? Onde está o puxador, não de samba, mas da consciência cidadã e patriótica? Ou até mesmo o melancólico quero-quero, que poderia ter nos pontiagudos ferrões das suas asas a imagem de liberdade retratada pelo novo Pedro Américo? Ébrio, intelectual e inculto. E o quê mais? Com coroa, com farda, com gravata. Por qual estereotipada figura teremos de gritar para comandar este país? Educação e cultura é o eco desse grito que teima em não sair da garganta da nação.  Enquanto isso, enchamos os pulmões e gritemos bem alto: S O C O R R O!  Mas... a quem mesmo estaríamos solicitando ajuda? O certo é que não poderia ser com sussurros flébeis. De um estrepitoso grito carece a nação. Porém, com sentido inverso. Que a retumbância do som não saísse de nós. Mas em nós entrasse, despertando a nossa consciência . VIVA O BRASIL! É a onomatopéia desse grito.
 
Cláudio Pinto de Sá
Enviado por Cláudio Pinto de Sá em 10/04/2006
Código do texto: T137014
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Sobre o autor
Cláudio Pinto de Sá
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 69 anos
163 textos (23329 leituras)
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Cláudio Pinto de Sá