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Emoção: *Inconstância*

 Emoções
Inconstância
"Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!
Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer.
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...
E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também... nem eu sei quando"...

Florbela Espanca

E assim começa outro tipo de emoção. Aquela que nos fala de dor, que ressoa como desamor e finda-se numa agonia e num estertor. Entra cabisbaixa, calada, impassível, num rosto marmóreo, frio, insensível, mostrando depois suas garras, suas artimanhas, suas crueldades, seus objetivos.
Abrem-se as cortinas deste palco da vida para a peça "Inconstância", dividida em 3 atos para nos atuares desses elencos, dedobrar-se num desfile de vilões, de malabaristas, de mentirosos a se vangloriarem das suas capacidades de atores, em palcos sem refletores, na hipocrisia de suas intenções.
Inconstância significa, no Aurélio, falta de constância, volubilidade, leviandade, infidelidade. Pra mim ela é, significativamente, início, meio e fim, mais ilustrado seria: a conquista, o uso e o abandono. Que absurdo termos que baixar a cabeça e seguir regras desse tipo, numa incapacidade atroz, nos menosprezando, nos anulando, nos constrangendo, nos sacrificando. Para, em seguida, nos tranformarmos em inocentes crianças que, à vista de um brinquedo novo, damos vivas e urros de alegria, de felicidade sem darmos conta do que está acontecendo ou quase a acontecer.
O início, " a conquista", abre alas para um desfilar de emoções, de envolvimentos, que ousamos aceitar , porque vêm mascarados, vêm disfarçados. No ato primeiro, nesse palco desse teatro somos platéia para depois sermos coadjuvantes de apenas um entusiasmo de ofertas, de presentes desejados. E se apresentam, de repente, sorridente, ofertando falsas emoções. Nessa canoa embarcamos, de peito aberto, vento fustigando nossas faces, balançando e embaralhando nossos cabelos, nossos cachos em ondas iguais marolas de esperanças, num rítmo de soprares, dando a impressão de vida, nos nossos remares e nossos navegares. É o estágio inicial, o flêrte, a sedução que nos oferecem amizade, amor, felicidade e sinceridade. Atraidos pela luz nós , mariposas, somos impelidas, convidadas para depois nos debatermos e nos queimarmos naquela claridade intensa, nos convites embriagadores de falsas ilusões.
O meio, "o uso", se pronuncia em salvaguardares desse sentimento e abrimos mãos de tudo que está ao nosso alcance, em termos de amizade, de carinho, de louvor que nos lotamos naquelas expectativas das carências em que nos encontramos. Ficamos nos desfazendo de tudo que outrora era o alicerce de nós mesmas, nossos costumes, nossas preferências, nossoa pontos de vista, nossas verdades, apenas para ofertarmos o que havia dentro de nós, para agradarmos, para justificarmos esses momentos. E então ficamos à mercê das palavras, das idéias, dos gostos, dos pensamentos, estuprando nossos anseios, nossas emoções, nossos devaneios. Mas estamos felizes, porque estava acontecendo um quase nada, um pouquinho do que tínhamos imaginado e desejado acontecer. Uma partícula de sonhos, de ilusões nos deslumbrava, nos emvolvia nos nossos apeteceres de esperas nesses afetos.
Mas, olha aí um "mas" de novo à baila, para se pronunciar. Chega a hora do fim, do "abandono", nesse triângulo de imaginações, de certezas. Verdades doídas, dilacerantes que deixam marcas, cicatrizes de muitas lágrimas derramadas, da realidade que não supúnhamos acontecesse, mas vêm inclementes, ferozes, facas afiadíssimas, com gumes escolhidos para cortar, dilacerar nossas entranhas, nossos corações e nossas esperanças. São como garras de feras ferozes, num buscar alucinado a nos empurrar para um abandono que tanto temíamos serem oferecidos. E, na correnteza desse rio caudaloso, somos arrastadas para uma realidade cruel, um final infeliz, uma desilusão. E viramos jornal de ontem, já lidos, relidos, sem valor...
Estamos assim entregues à pessoas que , em seus linguajares fáceis e pessoais se despem das roupas da amizade, arrancam o véu da sua verdade e a deixa à mostra, definindo seus comportamentos habituais e freqüentes. A nós nada cabe, só a decepção da falta de constância, da volubilidade de afetos, dos maltratos à nossas antigas certezas. agora reveladas e postas à luz.
Nessa leviandade não dão conta que somos seres humanos, de carne e osso, palpitantes de vida em nossos corações, que em suas funções nos alimentam atravez das corretezas nas nossas artérias, nossas veias, num incessante jorrar de sangue, que nos faz sermos viventes e humanos.
Devemos respeitar nossos semelhantes. São, como já disse pessoas que inadvertidamente, foram seduzidas e ludibriadas nessas malogradas aventuras acontecidas, mas que ainda respiramos e vivemos
Peçamos a Deus perdão pelos nossos atos. Se Êle assim o desejar, que o faça. Que nesses exemplos, aqui mencionados, não se repitam certos propósitos para que mais tarde possamos ser respeitados e absolvidos dos nossos atos falhos ...

Maria Myriam Freire Peres
Rio de Janeiro, 18 de março de 2006.


Myriam Peres
Enviado por Myriam Peres em 11/04/2006
Código do texto: T137472
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Sobre a autora
Myriam Peres
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 86 anos
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Myriam Peres