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Carlos

Carlos levantou-se aquela manhã e suspirou. Um suspiro mais longo e triste do que o que lhe era comum. Passou a mão pelos cabelos e finalmente dignou-se a sair debaixo das cobertas.
Abriu todas as janelas da casa, coisa que geralmente não fazia, e deixou-se ficar em frente à uma delas, sentindo o vento no rosto. Logo, voltou-se para dentro da casa e percorreu o quarto, juntando roupas sujas num cesto e levando-as para a área de serviços. Voltando, recolheu todos os papéis, pastas e cadernos espalhados pela casa (um caderno bem velho e sumido o fez sorrir quando ele olhou atrás da pia do banheiro), e colocou-os ao lado de caixas de papelão que ele havia tirado do armário de tralhas. Com paciência, separou os papéis úteis dos inúteis, os cadernos importantes dos rabiscados, as pastas inutilizadas das que ainda usava, e suspirou.
Para terceiros, seria realmente estranho ver com que rapidez Carlos fez aquela seleção, sem sequer ponderar por um instante se o papel era útil ou não. Foi objetivo, seguro, e não dava uma segunda olhada em nada que colocava nas caixas.
Lacrou-as com fita isolante, guardou-as no armário novamente e voltou para a sala.
Usou o aspirador de pó, que há muito não era nem sequer lembrado, e limpou os vidros e as quinas de cada parede ou porta. Espanou as cortinas, lustrou os cristais que herdara da avó e trocou as molduras quebradas e frouxas das fotografias espalhadas pela casa.
Depois de um almoço saudável - coisa mais incomum ainda -, Carlos sentou-se numa poltrona, puxou o telefone e discou para vários números diferentes. O contexto geral daquelas longas conversas que teve eram de saudades, boas lembranças, risos, desejos de felicidade e declarações de amizade e cumplicidade. Algumas em particular o faziam chorar; outras, gargalhar até quase sufocar; e em menor escala, fazê-lo calar-se por longos minutos, o semblante sério, os olhos fixos em algo que ele não via.
Ao final da tarde, o sol já sumindo atrás dos prédios, ele desligou o telefone e deu mais um longo suspiro.
Observou por mais um instante a casa.
Tomou um café.
Regou as plantas.
Sentou-se no sofá.
Suspirou.
E morreu.
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Iana Picchioni Araújo.
4 de outubro de 2005.
Ipê Araújo
Enviado por Ipê Araújo em 11/04/2006
Código do texto: T137546
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Sobre a autora
Ipê Araújo
Recife - Pernambuco - Brasil
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Ipê Araújo