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show da vida

Rosa Pena



Cartazes anunciam um grande espetáculo. Quem passa em frente, ganha um convite daqueles em que se paga 50% do ingresso. Aquilo o atrai, o néon, as lantejoulas, que imagina nos bicos dos seios das mulheres dançarinas. Ele arrisca, com a certeza de que, com aquele seu jeans tão gasto, não vai entrar mesmo. Na bilheteria a moça o atende com um sorriso mecânico e dá o bilhete que o levará ao céu. Entra com facilidade e tudo parece convidá-lo à emoção.
Assiste, empolgado, à chegada das pessoas. Vestidos longos e ternos cumprimentam-se. São provavelmente habitués do local. Sentado quieto, não conhece ninguém daquele mundo, acha tudo uma glória. Pessoas educadas, finas, pedindo licença:
— Poderia sentar um pouco para lá, assim não precisaremos separar a nossa turma?
— Pois não!
Quando tenta puxar conversa, perguntar um pouquinho daquilo que não conhece, ouve:
— Psiu! Vai começar.

Fica maravilhado quando a cortina se abre, apesar de não ter o brilho que o cartaz prometia, de não ter a alegria de um circo, aliás, é totalmente o inverso. Trata da pior fatia da existência: o vazio do prato, o vazio das letras. Fica pasmo ao ver como as pessoas se comovem com os retratos da vida que ali se sucedem, fotos em preto-e-branco de uma sociedade falida, onde prevalece a dureza, o preconceito, os anseios pelo cumprimento de promessas feitas. Rolam lágrimas no pessoal, ouvem-se soluços, e aplausos incessantes. Bis é o grito unânime, quando as cortinas se fecham. Ele, com seu jeans surrado, e sem muito estudo, acha que talvez não tenha entendido com exatidão tanta comoção, afinal não viu nada de novo.
 
Mas, ao acender das luzes, vê que as pessoas que choravam instantes atrás, agora estão quase entediadas, comentando aquela desgraça com certa graça e muito alívio. Percebe que ninguém mais olha para os lados, nem sorri indulgente para o vendedor de programas, apenas pedem licença já sem elegância, pois a pressa é grande. Está vista a miséria, está vista de longe. Missão cumprida inteirar-se dela. Dá status pra caramba, que nem empresário dizer que ama o povo e lutar para o mínimo minimizar. Falta agora para os de soirée, o jantar de fim de noite, num puta restaurante da moda, com cascatas de camarões, fechando de forma gloriosa a campanha do partido que vai eleger o presidente. Do lado de fora do teatro chove.
 
O jeans desbotado pensa até em pegar um táxi, mas lembra que é um desternado, que um ônibus é o mais conveniente para o seu bolso. Já gastou demais na meia-entrada do meio-show. Após uma espera longa, entra num ônibus cheio de pessoas que lutaram o dia todo: rostos empoeirados, cansados, iguais aos atores que se maquiaram para o espetáculo. Sem coragem de disputar lugar para sentar, acha que todos merecem este conforto, vai em pé, assistindo a essa outra peça, cujo enredo, já sabe de cor. Seu olhar cansado fixa, sem ver, um saco de biscoitos de uma encurvada senhora.

Na segunda parada, a dona dos biscoitos, que estava com uma sacola de bugigangas (provavelmente não conseguiu vender durante o dia), fala:
— Moço bonito (solta um riso franco, coisa que não havia visto ainda neste sábado), vou descer ali em frente, quer ficar com o restante dos biscoitos?
Responde para ela:
— O show da vida aqui é inteiro, não dura apenas uma hora. Mesmo sem aplausos, todos os dias, a gente bisa, e o nosso voto ainda paga o camarão e os ternos.
Ela, já na calçada, olha-o pelo vidro e dá um tchau, talvez sem entender muito daquela frase, mas está escrito em seus olhos:
— Boa sorte, companheiro, não de partido, mas de uma vida que do camarão não tem nem o cheiro.
 


LIVRO UI!

Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 10/01/2005
Reeditado em 05/12/2009
Código do texto: T1380
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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