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BOB, O ESCRIVÃO E A DÚVIDA...





Eu tinha uma linda cadela Boxer... Veio pra casa tão logo desmamou e foi o nosso encanto durante um bom tempo até que , cumprindo uma norma inexorável da Lei Maior, morreu numa manhã ensolarada, deixando uma enorme tristeza em todos.
Naquele dia eu entendi, com toda a perfeição que se pode ter de um pensamento, o porquê de minha mãe jamais admitir que em nossa casa vivesse qualquer animal. Por muitos anos eu pensei que ela não gostasse de animais e ficava admirado de como uma pessoa tão bondosa, tão sensível, tão dedicada ao seu semelhante, tão desprendida, pudesse não gostar de um cãozinho, um gatinho e animaizinhos assim, do gênero.

Descobri com o tempo que a sua sabedoria e bondade eram tantas que ela , conhecedora de que tais criaturinhas vivem pouco, não queria que passássemos pela tristeza do sofrimento de perder um ente querido. E nunca permitiu que tivéssemos um em nossa casa. Confirmei isso com a morte de Shirra que, em seus dias finais, parecia me implorar com o olhar para que eu fizesse alguma coisa por ela. E eu, impotente, só fazia rezar e pedir a Deus que acabasse com aquele sofrimento. O dela e o nosso.

Mas a vida continua. Segue seu curso em qualquer reino...

Bob é um pequenino cãozinho Poodle, tipo Toy, que apareceu do nada. Foi achado perambulando sozinho pela rua e trazido pra casa. Seu dono nunca apareceu, apesar de todo o empenho que fizemos. Todo branquinho, metido a valente e a vigia da casa. Esbraveja com o interfone, late pra Deus e o mundo e parte em cima do calcanhar de todos que chegam e não lhe fazem festa. Faz tanto escarcéu que às vezes penso que ele tem mania de grandeza. Deve pensar que é um Rottweiller, apesar de seus 28 cm.


Mas, apesar de não ser humano, Bob tem seus defeitos. Uns pequenos, outros maiores; mas um deles se sobressai de todos. A sua indolência. OH! Deus, vai ser indolente assim no mundo da “slow-motion”. É lento. Se encontra um cantinho aconchegante fica parado, cochila, dorme. A tarde inteira é assim até que minha filha chega do colégio e põe ele para andar, para brincar. Ai ele faz tudo;  corre, faz festa, passeia, faz graça e o diabo a quatro. Mas, verdade seja dita: É no “garruchão” ! Se deixar por conta dele ele e a indolência fazem dupla sertaneja...


Eu tenho um cliente que sofreu um terrível acidente aos 38 anos de idade. Camarada peão, laçador de boi, domador de cavalos, proprietário de um pequeno pedacinho de terra no interior onde mora com sua família de aproximadamente 6 pessoas, todas com problemas de saúde física e mental.

Depois de 1 ano perambulando em hospitais e clinicas, teve alta completamente inutilizado para sua profissão e para a vida. Perdeu órgãos internos, teve seqüelas psíquicas e vive hoje em constante estado de quase alienação, sobrevivendo à custa de remédios.

Chegou ao meu escritório nos idos de 1993, indicado que fora por alguém para que eu tentasse ver o que poderia ser feito em matéria de direito indenizatório. Ele tinha todos os direitos imagináveis e inimagináveis.

Iniciamos uma batalha judicial naquela época e por várias razões, umas até justificáveis e outras – a maioria – por razões inconfessáveis e impublicáveis aqui, o fato é que seu processo, com sentença transitada em julgado,  até hoje, passados que são mais de 12 anos sequer saiu da primeira instância, ou seja, continua na Comarca onde se iniciou.

Muitas pessoas, na maioria Juízes que passaram por lá, começaram  agilizar o feito e tentaram efetivamente impulsiona-lo, não só pelo tempo, pelas mazelas nele existentes, mas muito mais pela pena que a criatura inspira nos corredores daquele Fórum. Mas eles não ficaram e nem ficam muito tempo. São obrigados a sair, são promovidos ou removidos. Outros entraram que , ao contrário daqueles, contribuíram mais ainda para que o pobre homem se desesperasse a cada dia mais.

Há cerca de algum tempo passaram pela citada comarca dois juízes de extrema competência. Uma, juíza que, além da competência era de uma beleza digna de uma Deusa grega. Ambos empenharam-se a fundo para a solução do impasse. Ela, mais ainda, não só pelo direito do pobre homem, mas talvez, ainda, pelo instinto natural  feminino que enxerga o sofrimento alheio com mais sensibilidade.

E foi assim que ela percebeu o que a gente já sabia desde há muito. A indolência incompreensível e desumana do serventuário encarregado de dar seguimento às petições dos advogados e agilizar os feitos.  O cara é tão indolente, mas tão preguiçoso que conversa com o advogado sentado na sua mesa lá no fundo. Não levanta para vir ao balcão nem por decreto.

E a cada vez que eu conversava  sobre o problema  ele imediatamente se prontificava a resolver. Mas nunca encontrava o processo para eu olhar, nunca podia fazer carga porque estava sempre faltando uma petição para juntar. Na maioria das vezes o processo estava sempre, segundo ele, na gabinete do Juiz, o qual, não raras vezes, nem sabia do caso.

De uma feita me comprometi a cumprir uma Carta Precatória , por minha conta, numa capital das mais movimentadas do país. Depois de vária idas e vindas ao cartório, acabou por me entregar a Carta. Foi o diabo porque não li inteira e quando cheguei ao destino faltava o principal que era apenas a petição inicial da execução. O Juiz daquela capital que, em meio a intenso movimento me atendeu em seu gabinete e perguntou se lá não tinha escrivão... Nada puder fazer senão pedir desculpas pelo indolente e me penitenciar por confiar nele...

Nesta manhã de sábado minha filha veio reclamar comigo do Bob. Ela tem 8 anos. Acha que ele está doente porque não quer levantar muito de sua confortável almofada.
-Pô pai, Bob só quer dormir! Tá com preguiça até pra passear... Acho que ta doente. Só levanta arrastado.


Foi ai que lembrei o que o Bob me lembrava. E rapidamente disse pra ela:

Isto é doença mesmo minha filha. Chama-se indolência.
- E não tem  remédio pra ele? Perguntou interes sada .Remédio é difícil, mas tem uma simpatia que é batata. Trocar o nome dele.
E ficamos conversando qual seria o nome ideal para rebatizar o cãozinho peludo e cura-lo da doença.  Sugeri que ele passasse a se chamar Escrivão...
Ela  está até hoje pensando na sugestão e numa dúvida cruel...Será que o Bob merece isto?

Nelson de Medeiros
Nelson de Medeiros
Enviado por Nelson de Medeiros em 29/04/2005
Código do texto: T13842

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Sobre o autor
Nelson de Medeiros
Cachoeiro de Itapemirim - Espírito Santo - Brasil
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