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O que não faz o remorso!



A fidelidade é algo tão delicado que, via de regra, envolve situações bastante conflitantes e desastrosas.
Nossa história hoje é tragicômica, para se dizer o mínimo, uma vez que ocorreu com uma pessoa que sempre primou pela impecabilidade de atitudes.
Nosso protagonista, pessoa digna, de caráter firme, formação tradicional e valores bastante edificados, viu-se tentado por circunstâncias da vida. Casado, com dois filhinhos, foi sempre exemplo de dedicação e responsabilidade.
Estava realizando um projeto para a firma que trabalha, projeto este em parceria com outra empresa do ramo. Foi indicada uma secretária da tal empresa, para acompanhá-lo, e sem que pudesse opinar, viu-se convivendo, quase dez horas por dia, com a moça em questão. De conduta um tanto duvidosa, passou a envolver nosso personagem, que relutava heroicamente, numa situação constrangedora, e difícil de conduzir.
De maneira impecável, realizava o trabalho sem deixar-se enredar pelos apelos dos sentidos.
Resistiu o quanto pode, até que um dia, não mais suportando tanta pressão, acabou cedendo a tentação.
Após se organizar, em meio a muito nervoso e alterações de ânimo, ligou para a esposa e avisou que não tinha hora para chegar em casa, por conta de uma reunião emergencial. Suava frio ao desligar o telefone e já antecipava o remorso que sentiria.
A noite foi um total desastre, com todos os desencontros possíveis e imagináveis, e depois de tanta confusão, acabou discutindo com a jovem e nem aconteceu o tal encontro, embora houvessem passado considerável tempo juntos.
Chegou em casa de madrugada, exausto, estressado e com um drama de consciência enorme, atrapalhando-o no descanso merecido.
Dia seguinte, sábado, era dia do churrasco em família, já programado há semanas. Todos se preparavam animados e nosso herói, esforçava-se para demonstrar um entusiasmo, que estava longe de sentir.
Tanto queria agradar sua esposa que se ofereceu para levar a sogra e desviou um bom tanto de seu caminho, apenas para fazer a gentileza, que acreditava, agradaria sua companheira.que aos seus olhos havia sido magoada, mesmo sem o saber...
Já a caminho de Pinda, onde aconteceria o tal churrasco, em dado momento, atormentado como estava seu espírito, distraiu-se na direção e por pouco não colide com um carro que estava ultrapassando.
Todos se assustaram, mas não passou de um mau momento, nada que uma boa e súbita freada não tenha resolvido.
Neste momento, com a brusca freada, algo bateu em seu pé, e ao olhar, horrorizado, reconheceu um sapato de mulher.
Em pânico, suava, mal respirando, sofrendo todas as penas que uma consciência pesada pode causar. Sem que percebessem, aproveitando-se do alvoroço que o susto havia causado em todos, conseguiu pegar o tal calçado, e bem devagarzinho, foi disfarçando e conseguiu por fim, jogar janela a fora, num esforço hercúleo para se controlar.
A essas alturas, tinha certeza que teria um colapso ou algo pior. Seu desespero era tanto que apenas conseguia orar para que chegasse ao seu destino vivo, sem machucar a família.e se propondo a nunca mais em sua vida, se quer pensar em fazer algo errado.Tinha quase certeza que o enfarte o rondava sinistramente.
A família, desconhecendo seu estado de espírito, agitava-se normalmente. Como todo grupo que conta com duas crianças, iam cantando, brigando, enfim... vivenciando a rotina de uma viagem familiar.
Finalmente chegaram... Aliviado, nosso amigo, desliga o carro agradecendo aos anjos por ter sido poupado da mais terrível situação que nem em pesadelos sonhara passar.
Nesse momento, a sogra se manifesta, perguntando onde está o pé de seu sapato, que não há meio de encontrar.
Todos iniciam a busca e em meio a palpites e reclamações ninguém observa a cara apatetada de nosso protagonista, que sem cor, começa a perceber o que havia acontecido.Agora começa a Ter certeza que seu fim está próximo, tal o desespero que o envolve!
Com a sogra já perdendo a paciência e brigando além da conta, ele acaba tentando convencê-la de que havia saído de casa sem o outro pé...fato que seria impraticável, uma vez que o sapato em questão era de salto alto, mas mesmo assim, ele tentava com todas os argumentos possíveis convencê-la disto.
Neste momento, o filho mais velho, de seis anos, fala com a candura apenas reconhecida nos querubins de igrejas antigas.
- Mas papai será que não foi o sapato da vovó que você jogou no meio da estrada?


Priscila de Loureiro Coelho

Priscila de Loureiro Coelho
Enviado por Priscila de Loureiro Coelho em 10/01/2005
Código do texto: T1389
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Sobre a autora
Priscila de Loureiro Coelho
Jacareí - São Paulo - Brasil, 65 anos
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Priscila de Loureiro Coelho