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Meu Pai Tem Uma Amante

Tenho 28 anos, de uma prole de 8 filhos, bem casada, com uma filha de 7 anos. Tenho 8 irmãs que se estendem num mar revolto de dezenas de netos, sobrinhos,cunhados, amigos, nmorados, namoradas, e uma parnafernália de homens, mulheres, velhos e jovens, que compõem minha família.

Igual a todas, nem tudo é um mar de rosas. Há brigas, convulsões, litígios, invejas, insinuações, entreveros por ninharias, dívidas inafortunadas que o velho pai tratava logo de saldar.

Nos reunimos geralmente aos domingos na casa da mãe que sempre preparava uma tonelada de comida e sobremesas danosas aos enfermos e obesos.

Levamos uma vida normal, igual a de todos. De todas as famílias. Todas são mais ou menos assim. Sempre uma briga, uma discussão, uma lágrima, um aperto de mão, um abraço fraterno ou um empenhado acerro de idéias e situações. Coisas ternas ou, de repente, uma briga. Era uma polvorosa total.

Lidamos com dívidas, amores mal-sucedidos, gravidez súbitas, namorados fugitivos, cunhados amarradiços, amores repentinos e eternos, sempre coroando uma prosa fraternal e uma solução que sempre despencava de alguém.

Meu pai tem lá seus 70 anos bem vividos e carinhosamente aceitos por todos. Para sua idade ainda é um exemplo de fortificante no trabalho em sua mini-fazenda, próxima uma meia-hora da cidade.

Ele é respeitado e amado por todos. Às vezes explode uma discussão geralmente levada ao extremo. É um político fanático e um ardoroso amigo dos homens públicos. E um amigo da gente.

Um dia, sai com minha filha para um passeio. Era uma segunda-feira. No trânsito, onde se misturaravam mil carros, embolados, engavetados e suspirantes, vi o carro de meu pai no meio daquele caos. Pensei comigo. Tomara que ele nos veja.

Ao seu lado, no entanto, estava ma estranha figura, uma moça enfeitada de roupas modernas, de cabelos esvoaçantes, morena.

Eles não me viram. Deixei passar. Uma carona? Uma amiga? Qualquer coisa.Pensei,mas duvidosa.

No entanto, aquele quadro ficou na minha cabeça. Comecei a fazer perguntas a um e a outro. Conversei longamente com meu marido.

Comecei a procurar evidências e contatos. Ao longo do tempo - alguns meses - descobri que aquela jovem era amante de meu pai.

Que ele lhe dava tudo: comprou um terreno para ela, lhe deu uma casa, montou com tudo de mais moderno e confortante,com modernidade pra todo lado e andava como uma das bem vestidas mulheres da região.

Era bela, posuda, garbosa e não se retraia ao me ver. Ao contrário, debruçava um tênue sorriso de sarcástico à involuntário.Não sei.

As coisas começam a se encaixar perigosamente, Se eu já sabia,quase toda a cidade também estaria sabendo. Recei por ele. Havia acumulado uma fogosa quantia de mais de R$ 100 mil durante toda sua vida, entre trabalho, ganho de heranças, trabalho, além da aposentadoria.

Me aprofundei na questão. A cada dia sabia mais e de pior me acalentava uma agonia e apreensão interior. Uma questão especial de vazio me dominava.Estava em angústia e nervosa,deprimida e achacada.Sentia meu espírito humilhado.

Alguns meses mais tarde vim a saber - por coincidência - pois tinha que pagar uma conta hospitalar, e perguntei quanto ele tinha no banco. Ele me confidenciou, me abraçando, que tinha uns R$ 10 mil.

Perguntei, surpresa, onde havia ido todo seu dinheiro. Ele me contou baboseiras. Disse que havia emprestado o dinheiro a um amigo e que até agora não havia sido ressarcido.

Fingi que acreditei. Ele havia gasto com a moça mais de R$ 70 mil reais !

Reuni a família e expus o caso, logicamente sem a presença de minha mãe. Alguns sabiam, outros não. Alguns sabiam pela metade. Outros, impotentes, já sabiam há algum tempo a história inteira, mas tinham medo de falar.

Ela estava com 18 anos. Era bela e charmosa. De pouca leitura e de vivaz inteligência.Era bonita e, principalmente, muito jovem.

Resolvemos então marcar um dia, de supresa e conversar com o pai. Sentamos, sem graça, numa tarde de verão,um dia de semana, onde a mãe estava ausente, fazendo uma obra caritativa e abrimos o jogo com ele. Ele, meio inquieto , mas completamente dono de si falou:

-Vocês ainda são jovens e jamais vão comprender o que se passa comigo e e esta mulher. Não que eu não ame a mãe de vocês. Tenho muito amor por todos vocês, meus flhos. Mas o destino quis assim, é um amor diferente. Estou apaixonado por esta moça e, se vocês contarem para a mãe, estou disposto a largar tudo e viver com ela.

Um silêncio brotou na sala. Tudo que imaginávamos dizer e discutir estava embutido em nossos corações. A reunião curta e pávida, terminou rapidamente. Ele, meio contristo, pegou o carro e saiu.

Ficamos, nós os filhos a encarar um e ao outro. Não havia o que fazer. Já estava feito.

Meu pai, aos 70 anos se apaixonou por uma moça de 18.

Meu pai estava apaixonado.
Meu pai estava enamorado.
Meu pai tinha uma amante.

A sensação que me passou se transformou em ódio, auto-compaixão, piedade e lágrimas brotaram dos meus olhos. Nunca, nenhum de nós pensávamos que tal coisa iria acontecer conosco.

Eu me virei em angústia e acredito que todos os meus irmãos também.Não havia nada a fazer. Estava, como disse, feito.

Talvez dentro de algum tempo ele não teria dinheiro nem pra sustentar a casa, nem para comprar comida, nem para pagar seu próprio enterro. Ela levava tudo dele. Até objetos de minha mãe sumiam misteriosamente da casa e ligamos um fato a outro. Ele roubava de sua própria casa para dar a moça.

Em nome de nossa mãe, já idosa e com a fronte baixada de cabelos brancos, juramos guardar o segredo e não tocar mais no assunto. Ninguém faria ele mudar de idéia.

Meu pai estava apaixonado.
E eu parecia segurar alças de vidros que, com o menor sopro,
se espatifariam em mil pedaços.

Meu pai estava namorando. Estava apaixonado.
Meu pai, tinha, lá no fundo, lá no fundo mesmo, acho eu, medo de morrer.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 15/04/2006
Código do texto: T139376
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel