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Pés de Barro

Meus pés são de barro e nem por isto, homem de folia. Calço 50, homem de botas largas. E quantas eu disse e quantas a toquei,e as perdi. E falávamos apenas de coisas fagosas e desaparecidas, como o pó e o tempo.

Quem é de lá sabe de onde vim. Se morreu, morreu prá sempre. Envolta numa casca de noz - cansada de anos, toda picada de avestruz. De perto era uma festa de solidão. De longe boneca enfeitada de barro. Se morreu morreu prá sempre. E morreu bem, não foi notícia pra ninguém. E quem disse que tudo são duas portas?

Se é doce é de mamão, se é cor é de fantasmas. Fogem pelo corrimão e enfrentam sonhos gentis. E se morreu, morreu calada e triste, mas morreu bem.

Época de Mary Quant - onde repousam tesouros. Calça larga nem pensar. Corridas aos botequins, padarias, empórios. Dia de batata doce. Nos engenhos, pés de barro, saias bordadas, bem fundo no pé. Beijos só em refugos. Nas abóbodas de luz. Santo não vêm em casa. Palha, buscapé, batata doce, pois amores de verdade só nos fundos do engenho.

Veste o véu na casa rota. Corre à terra com brilho vestal. Faz do homem, um parceiro e trás o calmo pra plantar. Veste o sol, escorre de neve o sal, mas volta pra casa pra plantar.

Bebe vinho junto ao barro. Faz as medidas do pai, pois sonho bom não vêm. Se divide em quatro partes e toma as medidas do pai.

E lá estão morrendo em dueto, o pega-pega, o bonde, o facho, o caubói das três. As estátuas fazem colo e a boa linhaça da juventude não abre mais portas.

Faz a roda que eu danço. Torto, mas danço, mas não me devorem com suas fomes. Do barro faço o pés, caço aprendizes da fome e ensino-os a beijar a terra. Faz a roda que eu danço, mas de mim não faz a fome.

Cem anos na sombra e ela nem perguntou meu nome. Queria um cordão de ouro, um cruxifixo de marfim e uma caixa de música. Como não tinha dono, tirei a foto, bebendo vinho num cetro de ouro. Mas na sombra fiquei - cem anos e vão lá e nem perguntam meu nome.

E quanto mais tempo passa, mais poço e fundo ele fica.

Uma coisa leva à outra. A mesa leva à toalha, mas o vômito e no banheiro. Bate três, sem coelho e sem cão. Chegam John e Scott e soltam pólvora. Adormecem no colo de Ava, Débora, Brigite e Ava. Ah! Pipocas trás o primo desdentado. Um sonho azul, meio belga. Robin e Marian de bruços catam uvas. Mae West , de branco se sufoca nos braços de Jack. Não é sonho . E todos dizem : "avante John, duela", trás meu sonho de volta.

Sai do barro às seis em ponto, com oito músicos de cada lado,um mecânico, um pão, uma botelha de vinho. Ela, vestida de pano, me levou, sem graça, sem pagar. Perto do seu abismo me serviu torta de leite e mingau de trigo e mandioca. Mas no brejo, descalso, fiz ela rainha de todos os sermões e dona de todos os pecados. Se sobrou, foi em vão.

E estas lembranças do tempo de barro, de calças curtas já estão na soleira da porta. Pedem para entrar. São rascunhos de memória curta. E ela na cadeira de cedro, vestida de rosa me pediu pra sair. E da porta, passa a carrocinha e leva tudo. Ninguém mais entra, ninguém mais sai.

De mim só restam lembranças de pés de barro.Ninguém mais entra, ninguém mais sai.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 15/04/2006
Código do texto: T139379
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel