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O Bravo Não Chorou

As casas se alongavam preguiçosas ao longo de uma rua batida em terra e socado por trilhos de carroças.

Minha vila, carroças
de arroz batido,
mel e cachaça.

Galhos de dezenas de árvores debruçavam-se preguiçosas sobre a rua, sempre armando tépidas e longas sombras onde a maioria dos moradores da vila se deixavam ficar na época do forte calor e da mornagem.

Mornávamos a luz do dia,
debaixo de bananeiras
e vagalumes.

Nada estava preenchido,
nada estava completo.
Luz irradiante,
que não toca e
não faz sentido.

A vila era pequena e todos moravam,assim,lado
a lado. havia fazendas e sítios, mas bem longe dali.

Casinhola,
cheia de fetiche.
Dona dela era eu,
dono dele
era a vida.

Naquela época não existia muito a fazer senão brincar com outros meninos nas trilhas que se abriam ao redor da vila, nos brumos matagais.

Aromal,
rútilo,
sem cor de criança,
sem beiço pra beijar,
sem vontade de inventar.

Puxa a cadeira,
faz de conta, permeia a saia
e deixa o povo sonhar !

O mais importante era sentir o aroma que vinha da florada que se abria em todos os cantos.

E cantos por lá havia.
Senão do pároco,
senão das donzelas.

O mais importante era fazer parte dali - fato que iria marcar toda a vida dos meninos e meninas daquela época - uma âncora sem mar,
sem vista,
para um futuro,
que ninguém sabia.

A vila se inscrutava num vale, onde o trabalho era na lavoura, na colheita do café e do milho, que eram vendidos na capital.

Trabalho duro e braçal dos homens que levantavam ainda escuro e passavam todo o dia nos campos.

Carroças puxadas a parelha de bois, lentas e monótonas sempre passavam pela grande rua da vilazinha, ao lado de charretes com corsos,bem enfeitados e escovados e sempre enfeitados com puxões e arremates, de seda ou linho, no dorso dos animais, fazendo movimentos brilhantes ao sol, sempre que por ali passavam em direção às fazendas.

Pertenciam aos donos de moinhos. Os de longas terras e eram dos mais abastados.

A longa rua terminava numa pracinha , que tinha um coreto, vários bancos de madeira e postes mantidos à luz de querozene.

A paz morava ali. De manhã íamos à escola e a tardinha todos iam a praça, principalmente nas tardes quentes, onde muitos namoravam, outros, mais velhos, discutiam política,outros discutiam nada.

E era o que mais gostávamos.

As senhoras tricotavam e as crianças corriam descabeladas de um lado para outro.

E nessa idade tudo para a criança
vem a nascer,
nada está pronto,
tudo está por se inventar.

Luz do agreste que brilha
sem perguntas.

Seu nome?
Nome de Zeus !

Por trás daquele esplendor, no verão de 1919, apesar dos meus nove anos, o que me angustiava era ver um homem velho e de poucas forças, puxando uma carrocinha de pipocas e doces, subindo ou descendo a rua ou parando em seu lugar preferido: a praça.

Ele abria um longo chapelão de lona avermelhada sobre a carroça, se protegendo do sol, sentava numa banqueta e vendia suas guloseimas.

Ele passava o dia fazendo pipocas salgada e doce, amendoim e passoca, doce de arroz e tiras de broa de milho, como só ele sabia fazer.

Só ele, juro!
Aquele homem.

De muitos, ele não cobrava, era o pleno prazer de sempre estar juntos das crianças e fazê-las sorrir.

Da pracinha lembro-me vagamente das pedras sextavadas e dos postes com luzes tremulantes.

Da rua, das brincadeiras e correrias, da escola, de uma velha professora, que todos respeitavam; da igreja,do pároco gorducho que nos ensinava lições de catecismo com a obrigação de assistir as enfadonhas missas de domingo.

Não tinha pais e apenas um parente me abrigava. Me dava um teto decente e boa comida.

O homem da carrocinha era meu avô, que numa tarde ensolarada, morna e sonolenta, morreu, como uma ave, com a cabeça cândidamente apoiada nas arestas da carroça
Parecia dormir.

Mas não era sono pra criança
ver!

Morreu por volta de duas da tarde, mas só foram perceber lá pelas quatro horas, de tão calma e tranquila que foi sua morte. Seu grande corpo desengonçado parecia querer abraçar a carrocinha.

Daquela imagem nunca esqueci, como está em mim ainda o aroma e as encorpadas árvores da vila; o cheiro de flores o aroma das folhagens, a lembrança de meu avô. Tudo ainda está em mim como um sonho que não passou.

Hoje queria ele de volta.

Mas sovacado na cidade grande, entre mutirões de prédios e carros, de um barulho infernal, sinto que ele viveu a vida que quis e deixou sua liberdade de viver sobrevoar em todos nós.

É com esta pedra de angústia e lembranças, já sem nome, que me suporto e tenho vontade de chamá-lo de volta, como se a vila ainda existisse,como se ele estivesse lá ainda vendendo pipocas e preocupado com minhas artes de nove anos.

Era,
meu avó,
forte e belo,
foi uma arte de criança,
debruçada
aos nove anos.

E a longa
bruma terminou
em choro.

E John Wayne,
o bravo -
jamais chorou!
José Kappel
Enviado por José Kappel em 15/04/2006
Código do texto: T139380
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel