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Somos todos anjos

Alta madrugada. Despertei e notei que o Anjo da Solidão, meu companheiro inseparável de todas as noites, não estava no leito ao meu lado. Um pouco assustado, notei na penumbra do quarto que o Anjo do Sono estava sentado ao pé da cama. Antes que os meus olhos estivessem completamente abertos, ele falou: - Vamos brincar de esconde, esconde? E sumiu sem esperar a minha resposta. Contei até dez... Até cem... Até mil... E procurei o Anjo do Sono no meio dos lençóis amassados, nas sombras que a luz fraca da lâmpada de cabeceira jogava nas paredes e até no tique taque impaciente do relógio despertador. E nada...
Um clarão repentino renovou o meu susto. Logo reconheci o olhar achocolatado e os cabelos esvoaçantes do Anjo da Amizade que, saindo não sei de onde, pousou docemente ao lado do meu travesseiro. Em poucos segundos, ele segurou as minhas mãos entre as suas, e começou a contar histórias lindas dos belos momentos que tantas vezes passamos juntos. A penumbra ganhou centenas de cores enquanto nós dois, de mãos dadas, começamos a passear pelos caminhos das recordações. Respiramos o ar puro da brisa que brincava de pegar com as borboletas nas sombras de grandes árvores. Sentamos na beira de um lago de águas azuis, onde os peixinhos faziam malabarismos para chamar a nossa atenção. Atravessamos um jardim repleto de flores, enquanto centenas de passarinhos, de todas as cores, cantavam saudando a nossa passagem. Foi então que entramos num bosque onde a neblina era tão espessa que os nossos olhos, abertos ou fechados, enxergavam a mesma escuridão. Levei outro susto quando senti que a mão do Anjo da Amizade se desprendeu da minha. Abri os olhos e me vi novamente deitado no meu leito, com o Anjo do Sono cobrindo a minha visão com as suas mãos cinzentas.
- Onde está o Anjo da Amizade?, perguntei, enquanto sentia um torpor na mente, como se todas as forças estivessem fugindo do meu corpo. O Anjo do Sono ainda respondeu, antes que meus olhos se fechassem num sono profundo: - Não sei de Anjo da Amizade. Vi dois anjos voando em disparada quando cheguei. O Anjo do Amor, que estava de mãos dadas com o Anjo da Saudade. E, além de mim, só tem mais um anjo neste quarto: o Anjo da Solidão, que já está dormindo, como sempre, do teu lado.
Ainda tentei ficar com os olhos abertos, mas o Anjo do Sono, severo, me mandou dormir. Comovido com a minha tentativa de ficar acordado, ele falou mais uma vez: - Dorme tranqüilo. Vou mandar o Anjo dos Sonhos entrar no teu sono. E ele, que tem a mania de satisfazer todas as vontades de todos, mesmo aquelas vontades que a pessoa nem manifesta, fará com que tu encontres com todos os anjos que quiseres, até mesmo com este tal Anjo da Amizade que os teus pensamentos inventaram...
Então fechei os olhos e dormi como um anjo. E sonhei com todos os anjos que fazem parte da minha vida. Acordei na manhã deste dia com a certeza de que nós todos somos anjos. Mudamos de nome dependendo da situação e do nosso jeito de estender a mão e de caminhar de mãos dadas com quem precisa. Depois disso, passamos a fazer parte dos sonhos das outras pessoas, que nos reconhecem como os anjos que foram importantes para elas naquele momento mais preciso.
Milton Souza
Enviado por Milton Souza em 18/04/2006
Código do texto: T140937
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Sobre o autor
Milton Souza
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 71 anos
67 textos (5902 leituras)
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Milton Souza