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    (imagem de Fernando Lemos)

HORIZONTE EM OBRAS

      Perdi a conta de tudo que já perdi. Perdi tempo tentando achar: inútil, impossível. Perdi a paciência com estas perdas que insistem em vir ao meu encontro como se fosse eu seu alvo preferencial. Perdi a ilusão a respeito dos sonhos: eles não acontecem senão na minha cabeça. Perdi a esperança em algum sorriso de desdém ante a minha mais legítima boa vontade e ao meu entusiasmo juvenil com alguma coisa. Perdi a fé em quem não sustenta o olhar quando os miro direto nos olhos. Esta última, pelo menos tem a vantagem de ser uma perda que não lamento. 

     Tenho a impressão de que ou eu estou em algum curso intensivo para aprender a perder ou a idade está me levando a fazer uma contabilidade emocional para ver o resultado final. Perdi lugares que me eram caros, perdi pessoas que amei, perdi um filho, perdi parte da minha saúde. Estas, perdas bastante difíceis e não posso negar que abriram uma cratera no meu coração. Sobrevivi, contra todas as perspectivas e prognósticos aterradores.

     Perdi a vontade de ir aqui e ali apenas para agradar a alguém de quem gosto. Isto talvez tenha me tornado uma pessoa menos simpática ou agradável. De qualquer forma, me tornou alguém de quem eu gosto mais, embora tenha criado uma espécie de padrão repetitivo que venho ouvindo com certa freqüência: “ O único jeito de se livrar de você é ficar distante de você” ou a variável “Você é perigosa”. Ok, folks, I take it as a compliment. Estou melhor assim. Ainda que alguns me considerem um perigo a suas vulnerabilidades. 

     Perdi o hábito de dizer de forma descuidada verdades que supostamente não deveriam ser ditas. Na verdade, a verdade nunca é uma só e a perda deste hábito foi apenas o resultado de ter entendido que a minha verdade, ao chocar-se frontal e absolutamente sem rodeios contra a verdade alheia, jogou muita gente num mar de dúvidas a respeito da agradabilidade da minha companhia, já que abalava estruturas de castelinhos cor-de-rosa construídos em muitos anos por muita ilusão ou alienação voluntária. Talvez isso não seja necessariamente algo a ser classsificada como perda, já que quem se choca ao ver suas verdades expostas por outrem, possivelmente não iria mesmo agüentar minha companhia por muito tempo. Ou o contrário. Nesse caso, ainda tenho que pensar se isso vai pro ativo ou para o passivo. 

     Perdi a paciência – aqui cabe dizer que nunca tive muita – mas perdi o que restou, com pessoas que gastam tanto tempo pensando e analisando se vale a pena arriscar-se a mostrar a cara a alguém que ama que não encontram o caminho de volta para a ação e menos ainda o caminho que as leva para si próprias. Isso, obviamente, significa dizer que se eu era seletiva quanto às pessoas a minha volta, agora posso dizer, sem sombra de dúvida, que me tornei uma enjoada. Sorry, mas meu saco explode com indecisões, cagaços fora de hora e crises temperadas com silêncio apimentado e indigesto. Nem chá de boldo salva a situação nesses casos.

     Perdi um porrão de coisas. Bota tudo aí no meu Credi-Carma que eu resgato na outra encarnação. Só que tenho um defeito de fabricação ou algum defeito que ganhei com a idade: não perco a lição, NFMG (leia-se “nem fodendo muito gostosinho”). De tudo isso que perdi, saí no crédito com direito a limite de especial: mais do que em qualquer momento da vida, ganhei uma certeza inabalável de que eu me amo e sou correspondida. E daí decorre o principal: quem não gosta, que coma menos. Ou não coma. Porque eu me como todos os dias e estou muitíssimo satisfeita. E ainda peço bis.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 18/04/2006
Código do texto: T140999

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai