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História a dois

Quando li o conto louco de um louco bêbado e drogado, fiquei com mito medo. Li a história de nós dois, de nós atados, desatados, desatinados. De corpos, de copos, de olhos, de óleos, de suor, juntos em nome de tudo, do todo, do toldo, de toldar a alma, o olhar, o lençol. Vi o momento em que o toque foi antecipado, no primeiro toque, vi quando o olho ficou perdido no olhar do outro olho, no olhar seguinte. Revi o beijo na escada, os escritos tolos, tontos, desconexos; senti, mais do que revi, ou reouvi, quem sabe, a tua voz.
Fiquei estática, amedrontada, perdida em lembranças nossas, de gestos, de jeitos, de jogos de corpo, jogos de mãos, de cabeça. Teu corpo ao meu lado; tua mente, nem sempre, às vezes perdida num outro jogo, num outro assunto, numa outra mente, numa outra lembrança. Sempre tive dificuldade de alcançar teus pensamentos, porque eles sempre estiveram ocultos, mas acompanho teus gestos, muitas vezes ternos, outras vezes tão frios, noutras, ainda, tão grosseiros, todos rasgam minha garganta para não chorar, de alegria, de amor, desamor, desespero, desesperança, mágoa.
Quando minha alma fica pequena, meu coração estremece, meu sonho vira pesadelo, sabes, como ninguém, acarinhar, acalmar, aquecer. Mas tens teu demônio interior, que, quando minha alma se levanta, meu coração se alegra, meu sonho está dourado, procura, desnorteado, ferir, esfriar, apagar.
O grito que dás, o gesto que não fazes (ou fazes), se a palavra que não dizes (ou dizes), são tão doídos quanto são curativos, calmantes, amados, os carinhos, os afagos, as cumplicidades que temos. Por isso, não entendo os teus dois “eu”, por isso, muitas vezes, tenho medo de um, tanto quanto amo o outro.
 Quem és, qual és, qual o que me ama, qual o que não? O que amas? O que te fere? Por que não podes olhar com o mesmo olhar que te olho, falar com a mesma voz que te falo, amar com o mesmo amor que te amo? Ouvir com a mesma atenção que te ouço, mesmo que não te interesse o que tenho a dizer?
Retorna ao primeiro momento, o primeiro olhar, recorda o primeiro sentimento, o primeiro toque, o sim, o sempre. Lê o meu coração, meu conto, meu canto, te encanta de novo com meu pensamento, meu jeito, meu gesto.
nádia estrela
Enviado por nádia estrela em 18/04/2006
Reeditado em 18/04/2006
Código do texto: T141106
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Sobre a autora
nádia estrela
Torres - Rio Grande do Sul - Brasil
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nádia estrela