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A VIAGEM

                                         
A “boa” e tradicional viagem de ônibus têm que ter, pelo menos, uma criança chorando, uma velha que não para de falar e conta sua vida para todos os passageiros ou um homem que passa roncando durante toda a viagem. O passageiro fica de mãos atadas, pois não pode pedir para a criança ou velha calar a boca, muito menos chutar a canela daquele que impõe o seu pesado sono.

A viagem é uma boa oportunidade para ficarmos prestando atenção nas conversas alheias. Afinal, não sabemos quem são as Marias, Joãos, Anas, Pedros ou Antonios que são falados e, com isso, mesmo que falemos para outros daquilo que foi ouvido, não poderemos ser tachados de fofoqueiros. As histórias se repetem. Brigas de família, entre vizinhos ou colegas de trabalho. O ser humano, independente da raça, cor ou credo vive sempre em situações de conflito e isso é perceptível mesmo dentro do ônibus. O interessante é imaginarmos quem são estas pessoas que são mencionadas e, ainda, qual seria  a  versão delas sobre os fatos (justos ou injustos) que lhes são apontados. Afinal, dentro do ônibus não se tem nada o que fazer mesmo...

É claro que existe outra via. Aproveitar o tempo de viagem para observar a passagem noturna, os vidros embaçados e a lua longínqua no céu tão distante e olhar múltiplas vezes o relógio ou, ainda, poderemos fazer um balanço sobre a nossa vida. Acertos e desacertos. Sonhos. Contas a pagar no retorno da viagem. A velha contabilidade mensal da qual não escapamos sem a dor do bolso. Afinal de contas, de uma forma ou de outra, pensando nas contas ou ouvindo a conversa ou o ronco não poderemos dormir. Vale lembrar que existe aquele que, mesmo com todas estas condicionantes, com banco duro e apertado consegue dormir de forma tranqüila. É impossível não sentir uma “ponta”, ou melhor, um “iceberg” de inveja deste(a)  privilegiado(a).

E quando estamos quase “pegando” no sono, o passageiro da frente abaixa ao máximo o banco e nos deixa literalmente enlatados feito sardinha. O ônibus atravessa a estrada, muitas vezes, com aquele som de música sertaneja que só o motorista tem acesso. O difícil é quando bate a hora da fome ou da sede e se sente o aroma do salgadinho, da bolachinha de chocolate ou da lata de refri que é aberta e sorvida com todo o prazer por aquele prevenido que comprou antes de sair de casa. Com certeza, se fizermos “amizade” com alguém, no mínimo, uma bolachinha do pacote nos será oferecida, isto é, se o passageiro for bastante “pão duro”.

O pior é se no meio da viagem “bater” aquela vontade de ir ao banheiro. Neste caso, o conselho é uma prece ou massagem circular na barriga. Se, ainda assim, não adiantar, levante-se do banco, caminhe firme, tranque a respiração e vá com fé, pois, com certeza, você viverá alguns minutos inesquecíveis da sua vida, principalmente, se for do sexo feminino.

O tempo não passa e o sono não vem. A velha senhora continua a falar mal da nora e dos vizinhos. O homem continua a roncar e a criança, de vez em quando chora, para que não esqueçam da sua presença, e é claro, já tiveram dois passageiros que conversaram com o motorista: um para baixar a temperatura do ar-condicionado do ônibus e o outro para aumenta-la.

Meu amigo se tiver o azar de ir ao lado de uma pessoa completamente desconhecida, bem se prepare para escutar um monologo ou então para ter torcicolo durante a noite, pois uma visão frontal do outro é sempre constrangedora. Entretanto, se você for do tipo que gosta de levar vantagem em tudo, conte e exponha a sua vida e seus problemas pessoais ao passageiro do lado, talvez ele seja um bom psicólogo e assim poderá economizar uma sessão de análise.

Felizmente, chega a hora da parada. Os passageiros saem e tomam contato com o frio. É a hora de enfrentar a fila do banheiro e para comer alguma coisa. Não faltam aqueles que não temem ir ao banheiro do ônibus, pois corajosamente optam por comer um pastel de carne, um croquete ou uma coxa de galinha. Afinal de contas, preconceitos à parte, nunca ninguém morreu por comer um pastel num bar da rodoviária, mas com certeza, o estômago estranhará um pouco a carne, muitas vezes, envelhecida e reaproveitada e o pastel nadando no óleo.

Vale à pena a derradeira tentativa de pegar no sono, afinal a criança e a velha já dormiram e o homem que só roncava já acordou, está com os olhos bem arregalados, alheio a tudo o que aconteceu no ônibus. Entretanto, o dia está nascendo, o sol está entrando pela fresta da janela e daqui a mais ou menos meia hora o calvário termina, as despedidas acontecem e a promessa, sempre quebrada, de nunca mais andar de ônibus.

Passado algum tempo, o motorista com alegria e segurança anuncia que chegamos na cidade. Todos aliviados suspiram e se preparam para sair do ônibus para quem sabe conseguir dormir em uma boa cama familiar ou de um hotel confortável sem o agito do ônibus, sem o cheiro do banheiro ou o ronco do passageiro. Apesar de tudo, o divertimento é sempre garantido!

Até a próxima viagem de ônibus, não se irrite, afinal, nossos antepassados andavam no lombo de um cavalo...

                                                                       

                             


pássaro poeta
Enviado por pássaro poeta em 18/04/2006
Código do texto: T141282

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Sobre o autor
pássaro poeta
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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