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Ah...

                                   
Não sei se foi o calor. Não sei. Bateu forte a saudade. Me envolveu  violenta, exigente.
Saudade de um cheiro cheiroso.  De cozinha; de tarde.
Bolo.  Café.  Leite.
Barulho de louça.
Cheiro de infância.
Ah, o bolo da tarde!  Sequinho, fofinho, quentinho e tão cheiroso.  Mal dava tempo de lutar pela maior fatia.
Tantas crianças.
Cheiro de terra, suor, xixi... e depois do lanche só sobrava o cheiro da manteiga na mão mal lavada.
Cheiro de infância.
A sensação é tão forte que escuto os barulhos do quintal.  Quintal grande, árvores, pássaros, gatos molengas pelo telhado, latido dos cachorros e gritaria das crianças.
São tantas.
Ouço as vozes...  Mais uma briga?
- “Estou de mal, me dá o dedinho. E de mal prá toda a vida.”
E aí, de repente, briga esquecida : - “Vamos ficar ‘de bem’?”  “Me dá o dedão”.
Voltei lá muitos anos depois e o quintal não era tão grande assim. Das árvores, só uma resistiu às “melhorias na casa”.
Aninho-me no banco pronta para mergulhar mais fundo nos meus devaneios,  mas um som de buzina, forte, urgente, me sacode, me arranca dos meus nove anos e violentamente me coloca na direção do carro.
Farol verde. Ruído de motor.
Engato a primeira e me arrasto atrás da fila imensa de carros.  Os olhos ainda parados, o coração na boca. Lá vou eu.
Cheiro de escapamento.
Que saudade...
vera abi saber
Enviado por vera abi saber em 11/01/2005
Reeditado em 11/01/2005
Código do texto: T1414
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
vera abi saber
São Paulo - São Paulo - Brasil, 65 anos
118 textos (18144 leituras)
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vera abi saber