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Tu

Não é por acaso que o acaso faz parte de todos os casos onde a inspiração é a respiração do Homem ou a descoberta da Mulher ou a identidade da Espécie!
Receber uma carta pode ser uma inspiração, mas a inspiração como marca deixada, nunca pode ser algo que se recebeu e será sempre algo onde nos damos.
O teu email encontra-me em plena leitura dum romance de Hermann Hesse, no qual fixei logo uma das páginas iniciais, a 11, para retirar um parágrafo e guardar memória da leitura deste livro:
«Também conheci dias de tropel em que fantasiava ao violino e gozava da embriaguês de fugidias recordações e de estados de espírito coloridos. Só que sabia logo que não era uma criação, mas um jogo e um prazer do qual tinha de me proteger.»
Isto ilustra bastante bem o drama da Arte, um teatro onde livremente cada personagem desenvolve o seu papel, caracterizando-o da comédia à tragédia com implicações nos mais variados registos, alargando a gama dos sinónimos transversalmente às complicações e invenções e verticalmente às derivações e observações.
Observando estes aspectos, fazendo da escrita uma fonte de criação de Ar_te, como se ela se projecta-se em repuxos de ar visíveis nos fontanários, heis-nos aqui.
Tu
escreves-me a sugerir que eu escreva sobre mim e eu sou um preso, preso às contingências da clausura. Casado, pai de filhos, amigo e amante, marido extremoso. Um destino, sem defeito, está feito. Fora isso, todo o destino é uma espécie de natureza estranha, algo que não existe sozinho e pertence às coisas que lhe pertencem.
O que a Arte permite e permito-me crer seja o que a define, é atribuirmo-nos novos destinos. Imaginar as consequências deste facto é qualquer coisa de fantástico, engraçado e delirante, triste e secante: algo que penetra as expectativas e as pode dissecar em vivissecação, como se diz do dissecar em vida.
Com isto volto à citação para guardar memória de todo o parágrafo:
«Percebi que ir atrás dos sonhos e gozar as horas iluminadas não era o mesmo que lutar claramente contra os mistérios da forma como se fossem inimigos. E já nessa altura compreendi que a verdadeira criação nos afasta dos outros e exige algo de nós, e nos faz cortar com os prazeres da vida.»
Dito isto, está tudo dito, está tudo por dizer. Aquilo que um artista escreve está dito, mas não se escreve… foi escrito dito, ditado por um dos muitos destino distintos: em função da Hora, no momento, do instante.
Falar sobre mim é ter dito isto, arrependido e sem me arrepender. É um arre a pender para o burro, como se fossemos a própria besta que queremos tocar para a frente. Calculo que não te baste mas, imagina que se de ti disseres algo semelhante ao abrir do coração "falando com o coração nas mãos", é impossível dizer mais.
Ou então, abro o livro na página onde vou, p.19, e leio como quem lê o destino nas cartas:
«Fiquei muito espantado por vê-la. Num primeiro momento nem me lembrei como há pouco tempo me sentira próximo dela e como tinha estado apaixonado por ela. Escondia mal o seu embaraço, tinha medo da minha mãe e até do seu julgamento porque sabia que tinha culpa do acidente, e só lentamente se convenceu de que tudo não era assim tão grave e que de facto não era culpada.»
Também tu não és culpada, mas se quiseres ser personagem desta peça? Eu assinarei com R, tu poderás assinar de forma plural S de Sim, Sina ou Sopas? Se me deres sopa não levo a mal, nem o Mal entra bem neste Bem onde a Arte entra, fica e parte, sempre dependente da outra parte. Ou seja, respondo-te como te li, para que me leias como correspondi.
Não tentei fugir à tua sugestão de falar de mim, para falares de ti? Acho que falamos sempre de nós quando escrevemos a mais pequena coisa.
R

{Noutro dia escrevi a uma amiga e não havia modo(s) de obter resposta, finalmente, respondeu e lá vinha na resposta aquilo que eu tinha escrito. Achei que dava uma crónica, cá vai crônica…
Quem escreve isto? Sou eu, teu. F(im self)}
Francisco Coimbra
Enviado por Francisco Coimbra em 19/04/2006
Reeditado em 19/04/2006
Código do texto: T141578
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Sobre o autor
Francisco Coimbra
Portugal
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