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Triste Querência


- Quer ir até Querência comigo para abastecer? – perguntou-me o piloto pouco antes do almoço. Não tinha o que fazer na fazenda, já que estávamos gravando a bordo de um ultraleve, sem lugar para outro passageiro, e isso iria demorar mais umas duas horas. A frase seguinte do piloto foi o divisor de águas entre ficar e ir: “A gente aproveita e almoça por lá mesmo, tem um rodízio razoável na cidade.” E, além de tudo isso nunca perco uma chance de voar sobre esses sertões, desde que em aviões de onde eu consiga distinguir vaca de boi.

- Vamos lá!

Avisei o pessoal e embarquei no Sêneca, ocupando meu lugar habitual, na vaga do co-piloto. O avião correu pela pista de terra, com alguns tufos de grama aqui e ali e levantou vôo. O município de Querência fica encostado nas matas do Xingu, faz divisa com o Parque Nacional, na verdade. Por aqui, as fazendas chegaram há muitos anos, atraídas e financiadas pelos incentivos fiscais da falecida SUDAM. Largas extensões de matas foram transformadas em pastagens que, com o tempo e os cuidados ausentes ou insuficientes, foram se degradando. Agora é a soja que vem ocupando o lugar das pastagens.  Para o solo e para o ambiente, a troca é boa, mesmo considerando os produtos químicos usados na lavoura. A grande vantagem em termos ambientais é o cuidado na conservação e no trato do solo. Com a soja, chegam toneladas e toneladas de calcário, que vai corrigir a acidez excessiva e dar a base para a lavoura aproveitar os adubos que virão na seqüência. Uma vez feito o preparo pioneiro do solo, com grades pesadas e grades niveladoras, acabam as mexidas. Doravante, o plantio direto impera e as entradas de máquinas ficam limitadas às plantadeiras, pulverizadores – quando os defensivos ou agrotóxicos não são pulverizados por aviões – e colheitadeiras. Com a soja, acabam as enxurradas e as voçorocas. Acaba a erosão provocada pelas águas e pelos ventos de agosto e setembro, secos e quentes, que criam pequenos tornados, pequenos twisters que provocam grandes prejuízos. Isso se reflete nos cursos d’água, que deixam de ser assoreados chuva após chuva. Já é alguma coisa. Uma grande coisa, na verdade.

Entre a pista de pouso da fazenda e a cidade, sobrevoamos pedaços de matas, trechos de lavouras, agora já colhidas e com a palhada recobrindo o solo, e áreas ainda ocupadas com pastos.  O espaço para a soja crescer existe e é grande, sem necessidade de derrubar mais árvores. O horizonte está mais próximo, mais fechado, por conta de uma grande massa de nuvens, com chuvas caindo em vários pontos. E é quase embaixo de um aguaceiro que descemos em Querência.

Essa pista é nova e afastada alguns quilômetros da cidade. Tão logo o Naldo desliga os motores caem os primeiros pingos, e a terra vermelha começa a virar barro. Para não deixar para depois o que pode e deve ser feito agora, esperamos o “frentista” chegar para o abastecimento. Porém, a mangueira da bomba de gasolina é curta, não chega até o avião. Olhamos um pra cara do outro e, como o que não tem remédio, remediado está, entramos na chuva e empurramos o avião. Mas qual que ele se move! Os pneus estão presos ao chão pela camada inicial de terra vermelha molhada, também conhecida como barro. Enquanto reunimos força e jeito, os segundos passam e as gotas chegam aos magotes, aos montes, em pancadas. A água escorre pelas costas, testa, bochechas. Molha os olhos, já sem óculos. Finalmente, ele se move.  Empurramos até perto do barracão e corremos para o abrigo mambembe, mas seco. Nosso “frentista”, de chinelinho de dedo e bermuda, se aproxima da asa com a mangueira... Mas não chega até ela. Olha para nós e nada fala. Nosotros tampoco. De volta à chuva, molhada pra burro, mais força, mais jeitinho, mais barro, mais movimento, mais próximo do barracão e agora a mangueira chega.

Ele abre o bocal e vai começar a pôr a gasolina quando pergunto por uma proteção contra a chuva. Estou preocupado com a entrada de água no tanque, mas o piloto mesmo está tranqüilo. “Depois a gente sangra.” Sim, eu sei e conto com isso, mas se a gente pode evitara que mais água entre, por que não? Afinal, gasolina com água e vôo são coisas incompatíveis e o resultado é o chão. De maneiras muito pouco agradáveis, diga-se de passagem.

O frentista volta com uma sombrinha e começa o abastecimento. Embaixo de chuva, pois a sombrinha protege sua preciosa cabeça e não o bocal do tanque de gasolina. Olho pro piloto que já está olhando pra mim. Damos risada, vai com água mesmo.

Terminado o abastecimento, é hora de ir atrás do almoço, só que o táxi ainda não chegou. Minutos depois avistamos nosso transporte terrestre: um velho Escort, duas portas, meio caidaço. O simpático motorista encosta perto da gente e desce, apesar de dizermos que não precisa. Mas precisa, sim, pois só ele tem a manha para abrir a porta por onde entramos que, além de manhosa, só abre por fora.  O interior está recoberto de poeira vermelha, boa parte da qual irá emplastar minha camisa branca molhada. E provocar, num tempo futuro, um olhar desconsolado da camareira do hotel. Montado sobre chinelinhos de dedos idênticos aos do frentista, nosso taxista, igualmente de bermuda, nos leva pra cidade. Para a churrascaria.

Vamos diretos à primeira churrascaria, a “boa”. Não tem mais rodízio, agora é só prato “comercial”. Bom, então vamos pra “marvada”. Qual o quê! Rodízio, agora, nem na boa e nem na marvada. Acabou, a cidade não comporta mais um rodiziozinho simples. A cidade só comporta, agora, o prato comercial, meio assim, digamos, mambembe. E é o que comemos, enquanto o pessoal passa bem na fazenda.

A cidade também não comporta mais táxis, no plural.  Restou somente o velho Escort. Os dois Santana e a L 200 traçada, todos com ar condicionado, migraram em busca de melhores pousios.

A cidade está quieta, parada, vazia. O silêncio incomoda e eu me pego triste pensando que estou com saudade da zoeira de outros tempos. Voltamos para a pista de pouso e, no caminho, nosso motorista pára na “rodoviária” e pega um bloco de recibo com sua mulher, que vende as passagens de ônibus para os poucos interessados, menos de dez por dia.

De volta à pista, pagamos o transporte – 35 reais – e empurramos de novo o avião, agora para mais longe do barracão mambembe. Dessa vez com a ajuda do frentista. Minha camisa está bicolor: branca na frente e vermelha nas costas. Rapidamente levantamos vôo e voltamos pra fazenda. Querência e sua tristeza ficam para trás.

A tristeza de Querência tem nome, sobrenome e endereço: chama-se soja, ao preço de 15 ou 16 reais a saca, e custo de produção acima do que se consegue com a colheita, o que dá o sobrenome do monstrengo: câmbio.

O câmbio do real valorizado matou o rodízio e acabou com os táxis de Querência.


Abril, 2006
Emerson Gonçalves
Enviado por Emerson Gonçalves em 19/04/2006
Código do texto: T141928
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Sobre o autor
Emerson Gonçalves
Carapicuiba - São Paulo - Brasil, 62 anos
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