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Como eu vejo os fragmentos de Lygia

Recentemente, li “A disciplina do amor”, um pequeno livro de fragmentos da Lygia Fagundes Telles, que, aliás, recomendo para qualquer ser pensante, tanto o livro como a autora de forma geral. Apesar de Lygia ter muitas coisas boas, eu queria destacar essa obra como muito especial por causa dos fragmentos. Nunca tinha lido nenhuma prosa feita, do começo ao fim, só de pedaços, tudo jogado e sem costurar.

É uma estrutura interessante, não é? Muito confortável, especialmente para “escritores” como eu, cujas idéias são, invariavelmente, bichos ariscos que dão as caras e fogem depressa, ou vagas sugestões tão sutis e leves que se perdem antes mesmo que a gente possa lhes captar a essência.

Sim, é bem verdade: o maior trabalho do escritor nem é desenvolver uma idéia, mas aprisioná-la antes que fuja. As minhas geralmente me deixam com as mãos na cintura e o olhar entre vago e furioso, olhando para o tempo e tentando lembrar onde terei deixado aquela frase.

Nesse sentido, escrever em fragmentos é ótimo, não? É instantâneo. Obedece-se o fluxo da consciência, psicografa mesmo, e o leitor que se vire para achar um fio da meada interno.

O melhor da coisa toda é que esse estilo nos alivia daquilo que chamo pedras literárias. Explico com exemplo: certa vez, desci as escadas da minha escola de música e senti um cheiro agradável de chuva, final de tarde e pipoca. Nada extraordinário, mas é uma sensação que não gostaria de perder. Quero registrá-la de alguma forma, mas, é tão pequena em si mesma! Não vale um romance. Também não quero que seja esquecida. Traz em si algo de isolado, avulso, é uma sensação fragmentada, e, por tanto, cabe feito luva num livro de fragmentos.

É quase como se dentro do escritor habitassem várias personas, e, sendo eu a principal, outras de mim ficam escondidas, resolvendo falar só de vez em quando. Seu discurso é súbito e intenso, e não se encaixa na lógica da minha vida. Essas pessoas são meus pedaços avulsos, e os verdadeiros autores dos meus fragmentos.

Clarice Lispector já disse que seu primeiro livro foi escrito “com muita angústia”. Ela tinha idéias na faculdade, no teatro, por onde andasse, e nas horas mais inoportunas, estava tomando notas. Passou assim a vida toda. E disse, com todas as letras, que suas idéias aparecem de forma fragmentada.

Acho que todo escritor devia respeitar aquela idéia tímida que aparece quando estamos perto de dormir, aquele diálogo que surge na nossa mente do nada, essas idéias de assalto. De modo geral, é difícil juntar essas coisas, mas, se complicar muito, faz um livro de fragmentos!
Lá não há vergonha em se falar de um simples cheiro avulso, porque o livro é prosa poética, não tem outra finalidade, quando quiserem algo linear e denotativo, vão ler outra coisa. Nele, essa sinestesia louca convive, feliz, com outras idéias-irmãs, igualmente doidas: uma máxima semi-etílica que inventei, certo sorriso que em certa ocasião mereceu análise, o namoro dos meus dois violões, a cor do papagaio, etc, etc...

Eu mais esse monte de gente (minhas personas),compondo essa obra aos pedaços. Deve ter sido assim que Lygia se sentiu quando escreveu “A disciplina do amor”. Pelo menos é como eu entendo. E me parece ótimo. Um dia, eu quero fazer também.
Jéssica Callou
Enviado por Jéssica Callou em 21/04/2006
Reeditado em 24/04/2006
Código do texto: T142780
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Sobre a autora
Jéssica Callou
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 28 anos
44 textos (139781 leituras)
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Jéssica Callou