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Pronta para amar-se

Não sabia há quantas horas estava dormindo. Exausta, com olhos inchados e corpo dolorido, levantou-se devagar e caminhou até o banheiro se apoiando nos móveis. Quis lavar o rosto, mas ao se inclinar sentiu uma leve tontura. Ergueu-se e olhou-se no espelho. Após dois dias trancada em casa, chorando suas dores e também as que causou, tentava dominar os pensamentos para que as náuseas não voltassem.

Seus olhos, antes tão expressivos, estavam agora perdidos em sua ânsia. Queria gritar, mas faltava-lhe palavras e forças. Apenas se olhava no espelho, enquanto suas lágrimas escorriam-lhe num pedido urgente de sobrevivência. “Lute”, dizia a voz interior. Pacientemente seu corpo esperava alguma decisão. Sabia que não podia mais voltar atrás e reatar o casamento desfeito, conseqüência de um amor egoísta e imaturo. Um amor que por anos ditou suas escolhas e sua vida, e que não retribuiu sua doação e fidelidade da mesma forma. Mas não escondia sua culpa. Tudo aconteceu com sua permissão e agora apalpando seu rosto, sentia as marcas de sua omissão. Medo de perder, de admitir sua escolha impensada, sua fraqueza diante da vida e das pessoas... era mais fácil ser comandada, e assim convivia amigavelmente com sua odiosa fragilidade. Até que um dia veio o resgate. Um rosto desconhecido, quem sabe um anjo, a escolheu entre tantas humanas a serem protegidas e amadas, num tempo onde tudo parecia estar calmo entre o casal. A mão que jamais a condenou era também seu maior desafio. Aquele apoio era sua liberdade, ainda que incerta, mas real e possível, em que sua vida estaria de novo sob seu domínio e embora naquele momento vivendo o amargo da separação, ainda que justificada e pensada, sentia-se livre para um recomeço sem culpas e condenações.

Enxugou o rosto e olhou-se fixamente no espelho. E como se estivesse diante de um altar prometeu a si mesma lhe ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, em todos momentos, e que jamais se abandonaria de novo. A única certeza era de que aquela dor se minimizaria a medida que ela se desprendesse de suas próprias cobranças e indefinições. Sabia que ao seu lado estava alguém de coragem e pronto para amá-la e ajudá-la a encontrar novos caminhos, mas não se prendia a isso, pois bastava naquele instante acreditar em si mesma e na promessa de agora, não mais se anular e viver a vida do outro, por medo de trilhar seu próprio caminho. Tinha, enfim, ouvido seus apelos que se arrastavam por anos, alimentados pela esperança de que o amor renasceria a qualquer momento e estaria a salvo dos riscos que envolvem a separação. Não queria mais apoiar-se, e no seu íntimo sabia que ainda que fosse pela dor, esse era o momento de descobrir-se. Estava pronta, afinal.
Cláudia Sabadini
Enviado por Cláudia Sabadini em 22/04/2006
Reeditado em 22/04/2006
Código do texto: T143435
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Sobre a autora
Cláudia Sabadini
Cachoeiro de Itapemirim - Espírito Santo - Brasil
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Cláudia Sabadini