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Calcinhas Esfoliantes

Rosa Pena

 

Tia Francisca era convidada para almoçar de quatro em quatro meses na casa de Lourdinha, que fazia esse esforço para aplacar a culpa de não dar atenção à madrinha, mana de sua falecida mãe, e para garantir um lugar no céu. A afilhada tinha vergonha da fala desembestada da tia na frente dos outros. Chica, nos áureos tempos, tinha sido da pá virada, galinha, se fosse hoje, nunca teve papas na língua. Sempre falou o que lhe vinha na telha antes dos quarenta, imagina agora, com o dobro, quando a esclerose vira justificativa para qualquer impropério.

No almoço de janeiro a conversa girou em torno do rostinho de Marcelinho, seu sobrinho-neto de treze aninhos, que estava com a cara coberta de espinhas. Lourdinha disse que já tinha ido a inúmeros dermatologistas, esteticistas e nada de melhorar a face do seu anjo menino.

— E olha que não é de família. Só tive pequenas espinhas e veja seu rosto como sempre foi lisinho sem creme algum, nem rugas lhe apareceram com a idade. Atualmente é mais liso que o meu. Qual é o segredo?

— Desde mocinha, sempre entrei no banho com a calcinha que usava, principalmente as com cheiro de pecado, tirava e a esfregava na face com firmeza, depois enxaguava meu rosto só com água fria.

Os jovens riram baixinho e Lourdinha deu graças a Deus pela entrada súbita de Angelina, sua empregada, uma jovem bem lá do norte, de trinta aninhos, com um corpo generoso e a cor de algum afluente do Rio Amazonas. Madeira, quase Negro. Solimões, o porteiro, que o diga. Que bacia!

A fartura daquela bunda amazônica, que quase roçava no rosto dos convivas na troca de pratos para sobremesa, copos para refrescos, deixava os homens com uma tremenda vontade de virar os ventos Alísios.

Sempre depois dos doces a afilhada tinha uma urgência urgentíssima de levar a titia de volta pro asilo, antes que viessem novas histórias que ruborizariam até o anjo Nelson pornô.

Semana passada foi novamente o dia de limpar a consciência. Um novo cozido, o prato preferido da tia e a garantia de sua vaga no paraíso. Ah! Quanta generosidade, receber uma senhora idosa com tanta alegria!

Francisca, assim que se sentou à mesa, olhou a face limpinha de Marcelinho, exceto por duas pequenas espinhas que começavam a brotar no queixo, e perguntou como tinham conseguido o milagre. Lourdinha disse que as espinhas foram secando do nada, sem creme algum, de repente, de uns quatro meses pra cá.

Coisa do divino.  A conversa foi interrompida pela entrada da nova empregada, Gertrudes, uma senhora magra e pálida, com cara de poucos amigos e jeito de sapatão. Tia Chica perguntou pela antiga, a de cor de rios e bunda equatorial.

— Angelina? Posta na rua, a safada. Apareceu prenha de três meses e acusou Marcelinho de ser o pai. Vê se um anjinho desses pode ser acusado de fazer uma coisa assim! Certamente era do Solimões, que sumiu ou secou junto com ela.

Chiquinha abriu um sorriso e disse como quem não quer nada:

— Ou muda de empregada, de preferência uma de traseiro que provoque uma  pororoca, ou vai deixar muito dinheiro na mão de novos dermatologistas. 

Dona Francisca, nesse almoço, ficou sem a sobremesa! Lourdinha jurou que no próximo cozido vai experimentar colocar malagueta. Pimenta no cuzido sem refresco. 

O céu pode esperar ou, pensando melhor:

— Será que o inferno é tão ruim como dizem? Titia que mande algum aviso quando chegar lá. Que seja em breve. Brevíssimo, se Deus quiser!





  LIVRO UI! 
Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 23/04/2006
Reeditado em 30/09/2008
Código do texto: T144020
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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